30 anos da tragédia do Césio-137: o brilho azul e os impactos duradouros em Goiânia
Césio-137: brilho azul e tragédia em Goiânia há 30 anos

30 anos da tragédia do Césio-137: o brilho azul e os impactos duradouros em Goiânia

O brilho azul do césio-137 foi uma das características mais marcantes do maior desastre radiológico da história do Brasil, ocorrido em Goiânia em 1987. Para esclarecer o motivo desse intenso brilho azulado no escuro, o professor de química Elias Yuki Ionashiro, da Universidade Federal de Goiás (UFG), concedeu uma entrevista exclusiva.

O fenômeno do brilho azul: não é do césio

O professor Elias explicou que o elemento césio-137, por si só, não emite luz visível. “O césio não era para emitir essa radiação azul”, afirmou. Segundo ele, o fenômeno ocorre devido à interação da radiação com o ambiente, especialmente na presença de umidade, gerando o chamado efeito Cherenkov, responsável pelo brilho azulado.

“É um caso curioso que o brilho azul do césio não é pelo elemento. Os estudos indicam que a interação da radiação emitida pelo césio com o ar gera esse brilho luminoso”, destacou Elias. No acidente de Goiânia, o césio-137 estava na forma de cloreto de césio, semelhante ao sal de cozinha, o que facilitou sua absorção pelo organismo. “O problema maior foi porque ele era um composto que, além de estar na forma de pó, era um pó que estava solúvel”, ressaltou.

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Perigos da radiação e contaminação

Elias enfatizou que a radiação emitida pelo césio-137 é de alta energia, conhecida como radiação ionizante. No corpo humano, ela pode causar queimaduras e alterações no DNA, aumentando o risco de câncer e podendo ser transmitida para gerações futuras. “Quando as pessoas que tiveram exposição ao césio-137 fizeram o teste cromossômico, viram que grande parte tinha sofrido alteração genética”, relembrou.

Há uma diferença crucial entre radiação e contaminação. A radiação pode ser usada de forma controlada, como em exames médicos, mas a contaminação ocorre quando o material radioativo sai do controle e emite radiação continuamente no ambiente de maneira perigosa.

Relembrando o acidente: uma tragédia evitável

O desastre radioativo começou em 13 de setembro de 1987, quando Wagner Mota Pereira e Roberto Santos Alves retiraram um aparelho de radioterapia abandonado nas ruínas do Instituto Goiano de Radioterapia (IGR). Eles levaram a peça para a casa de Roberto, na Rua 57, onde removeram o lacre da cápsula contendo césio-137 em pó.

Em 18 de setembro, a peça foi vendida para Devair Alves Ferreira, dono de um ferro-velho, que ficou fascinado pela luminosidade e distribuiu fragmentos para familiares e amigos. Sem conhecimento do perigo, as pessoas manipularam o material, causando sintomas imediatos como náuseas, tonturas, vômitos e diarreia.

A suspeita de que o pó era o culpado surgiu com Maria Gabriela, esposa de Devair, que em 28 de setembro levou a cápsula até a Vigilância Sanitária. O acidente foi oficialmente identificado no dia 29 de setembro pelo físico Walter Mendes, que confirmou os altos níveis de radiação e iniciou o isolamento das áreas afetadas.

Vítimas e consequências duradouras

De acordo com informações do Governo de Goiás, um monitoramento no Estádio Olímpico avaliou mais de 112.800 pessoas, das quais 249 apresentaram algum grau de contaminação e 129 necessitaram de acompanhamento médico permanente. A tragédia resultou em quatro vítimas diretas, que faleceram entre quatro e cinco semanas após a exposição devido à Síndrome Aguda da Radiação (SAR):

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  • Leide das Neves Ferreira: Menina de 6 anos, símbolo da tragédia, foi a mais afetada por brincar com o pó e ingerir partículas. Morreu em 23 de outubro de 1987 e foi enterrada em um caixão de chumbo de 700 quilos.
  • Maria Gabriela Ferreira: Esposa de Devair, responsável por evitar maior contaminação, adoeceu três dias após o contato e faleceu em 23 de outubro, aos 37 anos.
  • Israel Batista dos Santos: Jovem de 20 anos, funcionário de Devair, trabalhou na remoção do chumbo da fonte e faleceu em 27 de outubro.
  • Admilson Alves de Souza: Aos 18 anos, também funcionário do ferro-velho, manipulou a fonte radioativa e morreu em 28 de outubro.

A tragédia gerou 6 mil toneladas de rejeitos radioativos, armazenados definitivamente em depósitos em Abadia de Goiás. Atualmente, o Centro de Assistência aos Radioacidentados (CARA) continua monitorando a saúde das vítimas e de seus descendentes.

Legado e iniciativas educacionais

O professor Elias revelou que a UFG estuda a criação de uma disciplina específica sobre o tema no curso de química, com o objetivo de formar professores mais preparados. A iniciativa busca garantir que o episódio continue sendo estudado e que tragédias semelhantes não se repitam.

A tragédia ganhou nova repercussão com o lançamento da minissérie Emergência Radioativa na Netflix, que retrata a contaminação radiológica e os esforços para conter o desastre. Este marco de 30 anos serve como um alerta sobre os perigos da radiação e a importância da segurança no manejo de materiais radioativos.