Cerca de 20 milhões de turistas visitaram Dubai no ano passado, atraídos pelo Burj Khalifa, o edifício mais alto do mundo. No entanto, a imagem de oásis de estabilidade que o emirado cultivou por décadas foi abalada pela guerra entre os Estados Unidos e Israel contra o Irã. Ataques iranianos com mísseis e drones contra alvos no Golfo Pérsico provocaram um forte choque econômico, com os mercados acionários de Dubai e Abu Dhabi perdendo inicialmente 120 bilhões de dólares (cerca de R$ 598 bilhões) em valor.
Impactos no turismo e aviação
O turismo, que contribui com aproximadamente 12% da renda anual de Dubai, despencou. A taxa de ocupação hoteleira caiu dos habituais 70% ou 80% para apenas 20%, segundo a consultoria londrina Capital Economics. Os voos de e para o Aeroporto Internacional de Dubai recuaram cerca de dois terços. Embora o tráfego aéreo e os negócios estivessem se recuperando com o cessar-fogo provisório, um novo ataque de drones iranianos ao complexo petrolífero de Fujairah, nesta segunda-feira (04/05), trouxe um lembrete indesejado: quanto mais durar o impasse entre Washington e Teerã, maior será a ameaça à reputação de Dubai como polo global de negócios.
Fuga de capitais e diversificação
Algumas das pessoas de altíssimo patrimônio que adotaram Dubai como playground dos ricos e famosos passaram a questionar se o emirado é, de fato, o refúgio seguro que prometia ser. Muitas já recorrem a outros dois grandes centros financeiros, Singapura e Suíça, para alocar ao menos parte de seus ativos. Consultores de patrimônio nesses países relatam um aumento acentuado nas consultas de clientes baseados em Dubai, com banqueiros privados suíços esperando dezenas de bilhões de dólares em novos fluxos vindos do Golfo.
Ryan Lin, advogado baseado em Singapura e diretor do escritório Bayfront Law, explica que os dois centros não são concorrentes diretos: “A Suíça tende a atrair clientes europeus e globais, enquanto Singapura tem mais probabilidade de se beneficiar de riqueza de origem asiática.” Singapura foi pioneira no modelo que Dubai mais tarde emulou, ao construir um ecossistema sofisticado de family offices, especialmente atraente para famílias da China, Índia e Indonésia. A Suíça, por sua vez, se apoia em sua longa tradição de bancos privados e reputação de neutralidade.
Para quem busca retirar parte dos ativos de Dubai, a mudança costuma ser uma “escolha entre crescimento e preservação”, segundo Till Christian Budelmann, diretor de investimentos do banco privado suíço Bergos. “Singapura é excelente para capturar o crescimento asiático, mas a Suíça continua sendo o principal porto de ancoragem do mundo para a preservação de capital”, afirma Budelmann, acrescentando que o país alpino “oferece um nível de distância sistêmica de focos geopolíticos que Singapura nem sempre pode garantir”.
Boom imobiliário perde fôlego
Além da retração imediata, o conflito ameaça o apelo de longo prazo de Dubai para expatriados e empresas. O estilo de vida cosmopolita da cidade ajudou a impulsionar um boom imobiliário que fez os preços de mansões de alto padrão quase dobrarem entre a pandemia e o fim de 2024. Agora, muitos estão preocupados com o setor. Em março, o valor total das transações residenciais caiu quase 20% na comparação mensal, para cerca de 10,1 bilhões de dólares (R$ 50 bilhões), informou a Bloomberg no mês passado. Projeções do Citi Research e da consultoria Knight Frank apontam para uma possível correção de preços entre 7% e 15%.
Apesar dos ataques iranianos, a maioria dos indivíduos de alto patrimônio não está deixando Dubai, mas diversificando. Budelmann descreve esse movimento como “hibridismo estratégico”, no qual os clientes mantêm seus negócios operacionais e alguns ativos nos Emirados, mas transferem a riqueza de longo prazo e, em muitos casos, estabelecem uma residência secundária em Singapura ou na Suíça.
Economia em pausa
Cerca de um quinto dos clientes de Lin baseados em Dubai planeja permanecer onde está e vê a instabilidade causada pela guerra como temporária. Para muitos outros, ter uma base em outro lugar passou a ser considerado uma apólice de seguro essencial. Antes da guerra, a economia de Dubai estava em plena expansão, com crescimento do PIB de cerca de 4,7% nos primeiros nove meses de 2025. Um recorde de 9.800 milionários se mudou para Dubai no ano passado, levando consigo cerca de 63 bilhões de dólares (R$ 314 bilhões) em nova riqueza, segundo a Henley and Partners. O emirado oferece imposto de renda zero para pessoa física, não cobra imposto sobre ganhos de capital nem sobre herança e aplica um imposto corporativo de apenas 9% sobre lucros acima de cerca de 100 mil dólares (R$ 498 mil). Empresas em zonas de livre comércio não pagam imposto algum sobre a renda qualificada.
Popular por bons motivos
Inicialmente um modesto assentamento no deserto, Dubai passou os últimos 50 anos expandindo os limites da inovação e da engenharia. Analistas acreditam que, se o cessar-fogo se mantiver e a confiança retornar rapidamente, Dubai pode se recuperar com rapidez. Eles também alertam contra descartar a cidade que abriga o prédio mais alto do mundo – o Burj Khalifa – e uma longa lista de outros projetos aparentemente impossíveis que se tornaram ícones globais. Antes da guerra, o governante de Dubai, o xeique Mohammed bin Rashid al-Maktoum, colocou em marcha planos para transformar o aeroporto de Dubai no maior hub de aviação do mundo e dobrar o tamanho da economia até 2033. Outros projetos audaciosos também estão previstos, como uma passarela climatizada de 93 quilômetros conhecida como The Loop, o maior sistema de recifes artificiais do mundo, com mais de 1 bilhão de corais, e um chamativo hotel na forma da Lua, voltado para o turismo de luxo.



