O governo federal lançou, nesta semana, o Novo Desenrola Brasil, a segunda edição do programa de renegociação de dívidas, com o objetivo de aliviar a pressão financeira das famílias brasileiras. A iniciativa deve beneficiar cerca de 20 milhões de pessoas e prevê a renegociação de até R$ 58 bilhões em débitos, incluindo dívidas antigas e recentes.
Endividamento recorde das famílias
O endividamento das famílias brasileiras continua em trajetória de alta, atingindo 80,9% em abril, o maior nível da série histórica da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). A inadimplência, que representa as dívidas em atraso, também permanece elevada, em 29,6% das famílias. Esse cenário contrasta com indicadores econômicos favoráveis, como desemprego em mínima histórica (6,1% no trimestre encerrado em março), renda média em alta (acima de R$ 3.722) e crescimento do PIB pelo quinto ano consecutivo.
Por que o brasileiro continua endividado?
Mesmo com mais emprego e renda, fatores como o custo de vida elevado, o crédito caro e a dependência de financiamentos explicam o fenômeno. Após a pandemia, o Brasil adotou juros historicamente baixos para estimular a economia, com a Selic a 2% ao ano em outubro de 2020. No entanto, com a reabertura, a inflação disparou, e o Banco Central subiu os juros, levando a Selic a 13,75% ao ano em agosto de 2022. Esse ciclo de alta incentivou o endividamento das famílias.
O primeiro Desenrola, lançado em maio de 2023, reduziu temporariamente a inadimplência, renegociando R$ 53,2 bilhões em dívidas de 15 milhões de brasileiros. Mas o alívio não se sustentou devido a incertezas econômicas globais, como a eleição de Donald Trump nos EUA, que pressionaram os preços novamente. Em junho de 2025, a Selic chegou a 15% ao ano, o maior patamar desde 2006.
Impacto no orçamento familiar
Segundo o economista Flávio Ataliba, do FGV Ibre, a melhora no mercado de trabalho não foi suficiente para aliviar o orçamento das famílias. Dados do Banco Central indicam que o comprometimento da renda com dívidas bancárias chegou a 29,3% em janeiro deste ano. Muitas famílias ainda carregam dívidas acumuladas desde a pandemia, e a renda extra é direcionada para despesas básicas, sem gerar folga financeira.
Pesquisa Quaest aponta que 71% dos brasileiros compram menos do que há um ano. A inflação dos alimentos, medida pelo IPCA, acelerou de 5,54% em maio de 2023 para 7,81% em abril de 2025. Itens como arroz, feijão, leite e carnes tiveram altas expressivas, e as carnes lideraram com 21,17% em janeiro de 2025. Em março de 2025, os gastos essenciais consumiam 41,8% do orçamento familiar, segundo dados da Tendências Consultoria.
Educação financeira como solução
A economista Olívia Resende, especialista em finanças comportamentais, destaca que o viés do presente leva as pessoas a focarem apenas na parcela que cabe no bolso, ignorando o custo total da dívida. Pesquisa da Creditas com Opinion Box revela que 59% dos brasileiros iniciaram o ano sob pressão financeira. A falta de educação financeira contribui para um ciclo de dependência do crédito, e 84,9% dos endividados usam o cartão de crédito como principal modalidade.
Resende alerta para a normalização do endividamento, impulsionada por conteúdos nas redes sociais que prometem atalhos para reduzir dívidas, como a Lei do Superendividamento. Ela defende que a educação financeira deve começar cedo e combinar alívio imediato com mudança de comportamento de longo prazo.
Regras do Novo Desenrola
O programa permite a renegociação de dívidas bancárias e não bancárias, com descontos e parcelamento facilitado. As regras detalhadas serão divulgadas pelo governo, mas a expectativa é de que o processo seja digital e acessível. A meta é impactar até 20 milhões de pessoas e renegociar R$ 58 bilhões, ajudando as famílias a reorganizarem suas finanças.



