Áudios expõem orientações perigosas em caso fatal de intoxicação em piscina de academia
Gravações obtidas pelo Fantástico revelam as orientações dadas pelo proprietário de uma academia a um funcionário sem qualificação sobre a limpeza da piscina onde uma mulher morreu após uma aula de natação na Zona Leste de São Paulo. Os áudios mostram Celso Bertolo, identificado como empresário, instruindo o manobrista Severino José da Silva, de 43 anos, através de aplicativo de mensagem.
Funcionário sem especialização seguia ordens à distância
"Nossa, eu olhei pela câmera e ela tá horrível. Eu tô achando que tá sem cloro. Mede ela a hora em que você for lá que, se bobear, a gente joga até um pouco mais", disse Bertolo em um dos áudios. A defesa do trabalhador afirmou que Severino não possuía nenhum tipo de especialização para manusear a limpeza da piscina.
"Ele não tem conhecimento técnico para manusear piscina ou qualquer manutenção que seja. Todos os dias, pela manhã, ele fazia a medição da água e enviava uma foto do medidor por aplicativo de mensagem pro proprietário, o Celso. A partir disso encaminhava os produtos e quantidades pra usar", explicou a advogada Bárbara Bonvicini, responsável pela defesa de Severino.
Orientações para aumentar cloro sem controle técnico
Nos áudios, é possível ouvir o empresário orientando o funcionário a usar mais cloro na água. "Mano, a piscina tá cada vez ficando mais feia. Certeza que é falta de cloro", afirmou Celso em uma mensagem. "Hoje, a hora em que você for, a gente mede e dá uma clorada mais forte pra amanhã estar bonita", complementou em outro áudio.
De acordo com a investigação, a morte da professora Juliana Faustino Bassetto, de 27 anos, foi causada pela mistura incorreta de produtos usados no tratamento da piscina. Essa combinação inadequada levou à liberação de gás cloro, uma substância altamente tóxica e perigosa quando manipulada sem técnica ou proteção adequada.
Experimentos demonstram perigo da mistura química
No Fantástico do último domingo (15), especialistas do Instituto de Química da USP mostraram, através de experimentos controlados, como a combinação dos produtos usados em piscinas pode gerar o gás perigoso. Os produtos envolvidos são:
- Hipoclorito de cálcio, utilizado como desinfetante
- Dicloro isocianurato, outro agente de cloração com função semelhante
- Um ácido usado para regular o pH da água
Quando qualquer um desses agentes de cloro entra em contato com um ácido — seja o regulador de pH ou outro produto ácido usado para limpeza — ocorre uma reação que libera um gás amarelo-esverdeado: o cloro gasoso.
Perigos do cloro gasoso para a saúde humana
O cloro gasoso, quando inalado, reage imediatamente com a água presente nas mucosas do corpo — nariz, garganta, boca e pulmões. Essa reação produz substâncias extremamente irritantes, semelhantes ao efeito de inalar água sanitária pura.
Segundo a explicação do professor Reinaldo Bazito, o gás provoca irritação profunda nas vias aéreas, causa sensação de queimação, pode levar a edema pulmonar e, em alta concentração, pode ser fatal. Os especialistas deixam claro que, embora pequenas imprecisões sejam toleradas no tratamento de uma piscina, um erro grave como esse pode gerar consequências fatais.
Falta de controle formal e negligência na academia
A investigação revelou que não havia controle formal das medições de pH e cloro, como exige a legislação. Isso pode ter levado à mistura, em um balde, de produtos incompatíveis ou em quantidades completamente inadequadas — exatamente o tipo de erro que, segundo os especialistas, gera uma liberação repentina e volumosa de gás cloro.
"A legislação prevê que eles têm que ter um registro, com anotação, disponível para qualquer cliente, consumidor, aluno, com as medições do nível de pH, do nível de cloro, do nível de acidez da água, isso não existe. Eles assumiram completamente o risco de expor as pessoas ao contato com gases tóxicos e o resultado, infelizmente, foi a morte da Juliana", afirmou o delegado Alexandre Bento.
Reação química e pânico na piscina
Testemunhas relataram que o balde próximo à borda da piscina começou a soltar uma fumaça amarelada e irritante — o mesmo aspecto observado nos experimentos químicos. Momentos depois, nadadores começaram a sentir ardência nos olhos, queimação na garganta, falta de ar e sufocamento.
A rápida propagação do gás dentro do ambiente fechado da piscina deixou frequentadores em pânico e resultou na intoxicação grave de várias pessoas — entre elas Juliana Bassetto, que não resistiu. Um jovem de 14 anos, que também estava na piscina e chegou a ser internado em estado grave, teve alta na sexta-feira.
Andamento da investigação e posição dos envolvidos
Os três sócios da academia — Cesar Bertolo Cruz, Celso Bertolo Cruz e Cezar Miquelof Terração — não quiseram dar entrevista. Em nota, os advogados afirmam que os clientes permanecem inteiramente à disposição das autoridades, confiando que a investigação prosseguirá de forma técnica, isenta e em estrita observância às garantias constitucionais.
Na sexta-feira, a Justiça negou a prisão temporária dos empresários, que havia sido pedida pela Polícia Civil. A polícia investiga o caso sob a perspectiva de negligência e exposição de frequentadores a gases tóxicos. O marido de Juliana, Vinícius, recebeu alta do hospital neste domingo (15), enquanto a investigação continua apurando as responsabilidades pelo trágico incidente.