Dupla sertaneja mais antiga em atividade, Lourenço e Lourival criaram primeiro cachê do gênero
Lourenço e Lourival: pioneiros do cachê sertanejo

Com 89 e 86 anos, Lourenço e Lourival formam a dupla sertaneja mais antiga ainda em atividade. Em 1971, críticos afirmaram que a música “Como Eu Chorei” marcaria o fim da carreira deles. No entanto, a canção, inspirada na Jovem Guarda, criou o primeiro cachê do sertanejo e abriu portas para as próximas gerações.

Inspiração em Roberto Carlos

A canção foi inspirada em “Quero que vá tudo pro inferno”, de Roberto Carlos. Foi o primeiro grande sucesso da dupla e representou uma mudança de estilo. “O sertanejo já estava ficando repetitivo, só viola e violão. Então a gente mudou o jeito de cantar, pensando nos jovens. E deu certo”, conta Lourenço.

Críticas e inovações

Nem todo mundo aprovou a novidade. Muitos violeiros criticaram a dupla por incluir instrumentos como gaita de boca e teclado, algo inédito no gênero até então. “Eles falavam que ‘Como Eu Chorei’ era iê-iê-iê e que sertanejo não pode cantar iê-iê-iê”, lembra Lourenço. Surgiram previsões de que a dupla não duraria, mas os irmãos não se abalaram. “Deixa falarem. Não me batendo, tá bom”, brinca.

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O mal-entendido do cachê

A música criticada também trouxe inovação financeira. “A primeira dupla a fazer cachê foi eu e meu irmão”, afirma Lourenço. Tudo começou em Botucatu (SP), quando uma rádio local passou a tocar “Como Eu Chorei” sem parar. O sucesso foi tanto que o dono da rádio foi até São Paulo procurar os irmãos no Bar do Café, no Largo do Paissandu, onde artistas se encontravam. Ele queria contratá-los para a inauguração de uma nova emissora. “Nós estávamos tomando garapa, que era o nosso almoço”, lembra Lourenço.

Foi aí que surgiu a proposta de cachê — que, de início, eles recusaram por um mal-entendido. Lourenço achou que “cachê” era “caxi”, um legume parecido com chuchu. “A nossa mistura na roça era aquilo. Aí eu falei: ‘Não aguento mais comer caxi, vim da roça esses dias’”, lembra. Quando entenderam que era um pagamento fixo pelo show, tentaram calcular um valor com base no que ganhavam em circos. O empresário ofereceu o dobro. A praça em Botucatu lotou. “O sucesso foi tanto que ele pagou outro cachê pra gente ficar no domingo”, lembra Lourival.

Legado e influência

A mistura de sertanejo com Jovem Guarda, que marcou “Como Eu Chorei”, continua influenciando artistas até hoje. A música virou referência e já foi regravada por nomes como Eduardo Costa e Ana Castela. Os irmãos têm orgulho desse pioneirismo. “Nós abrimos o caminho. Depois veio o Leo Canhoto e Robertinho, Milionário e Zé Rico, tudo já com outras roupagens igual nós”, diz Lourenço.

Esta reportagem faz parte de uma série especial sobre música sertaneja exibida no EPTV 1, celebrando o concurso cultural “ÉPra Cantar”. Nesta edição, o grande vencedor terá a chance de subir ao palco da Festa de Peão de Barretos, o maior rodeio da América Latina.

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