O atleta Rafael Vinocur, natural de Itu, interior de São Paulo, concluiu com êxito a 40ª edição do Marathon des Sables (MDS) Legendary, reconhecida como uma das ultramaratonas mais desafiadoras do planeta. A competição ocorreu no Deserto do Saara, entre os dias 3 e 13 de abril. Durante seis etapas, o corredor enfrentou condições extremas, como calor intenso, tempestades de areia e a necessidade de ser autossuficiente ao longo de 270 quilômetros.
Participação e regras
A prova reuniu aproximadamente 1.500 atletas oriundos de 60 países, dos quais apenas cinco eram brasileiros. O regulamento exige que os competidores carreguem em suas mochilas todos os itens necessários para a sobrevivência, incluindo água fornecida pela organização, alimentos e saco de dormir. O peso da carga varia entre 6,5 kg e 15 kg, e o abrigo é feito em tendas compartilhadas.
Desafios enfrentados
Rafael Vinocur destacou as dificuldades impostas pelo terreno e pelo clima. "No meio do Deserto do Saara, é totalmente remoto. A minha mochila acabou sendo bem pesada, tinha cerca de dez quilos e meio. Esse foi um dos desafios com os quais eu não estava acostumado", relatou. "O mais difícil dessa prova são as condições. Por você estar no meio do deserto, tem um calor bem forte. Correr na areia é muito difícil, não estava acostumado e imaginei que fosse uma terra mais batida, mas grande parte da prova foi em duna, então é bem difícil de correr", completou.
Etapas da ultramaratona
A competição é realizada no Marrocos ao longo de 11 dias, sendo nove deles diretamente no deserto. Os 270 km são divididos em seis etapas com distâncias variadas: 1ª etapa: 35 km; 2ª etapa: 40 km; 3ª etapa: 29 km; 4ª etapa: 100 km (divididos em dois dias); 5ª etapa: 42 km; 6ª etapa: 23 km.
Rafael levou 25 horas consecutivas para concluir o trecho de 100 km, enfrentando forte tempestade de areia e cansaço extremo. "Essa etapa foi bem difícil. Estava com muito sono, tinha dormido três horas na noite anterior, então estava praticamente dormindo enquanto corria. Cheguei a quase desmaiar no final, mas consegui me manter correndo com outro brasileiro que encontrei no caminho, e isso ajudou a terminar e a manter um ao outro acordado", contou.
Impactos na saúde
O nutricionista Gustavo Buzzo, do Hospital São Vicente, em Jundiaí (SP), explicou que correr sob tais condições expõe os atletas a riscos que vão além do cansaço. Os principais perigos incluem desidratação severa, desequilíbrio de sais no organismo, hipertermia e golpe de calor, que pode ser fatal sem atendimento rápido. O especialista também apontou o risco de lesões musculares graves, como rabdomiólise, que é a degradação muscular e pode sobrecarregar os rins, além de queda da imunidade, lesões nas articulações e problemas nos pés.
"Uma coisa que foi um desafio para a maioria das pessoas foram as bolhas. Conheci um brasileiro que teve mais de 40 bolhas no pé. Lá havia uma barraca própria para curar as bolhas", relembrou Rafael. Segundo Gustavo, o estresse físico e a falta de sono liberam altos níveis de cortisol e adrenalina, podendo causar confusão mental, alucinações e perda de coordenação motora, além de aumentar o risco de lesões. Dormir menos de quatro a cinco horas por noite em condições extremas reduz o desempenho e pode levar à perda de massa muscular.
Cuidados médicos
Rafael passou por exames médicos antes da prova, conforme exigido pela organização. "Durante o evento, fui à tenda médica apenas uma vez por causa de uma dor no tornozelo. Depois da prova, fiz exames de sangue para ver se estava tudo certo e passei por fisioterapia", explicou. A organização exige a apresentação de documentação médica impressa, datada e assinada para a inscrição.



