Morte em academia de São Paulo expõe perigo na manipulação de produtos para piscina
A trágica morte de uma mulher após uma aula de natação em uma academia da Zona Leste de São Paulo revelou um grave risco muitas vezes subestimado: a liberação de gás cloro devido à mistura incorreta de produtos utilizados no tratamento de piscinas. Especialistas do Instituto de Química da USP demonstraram, através de experimentos controlados, como combinações perigosas podem gerar essa substância altamente tóxica.
Como a reação química fatal ocorre
Os produtos envolvidos no acidente são comuns em manutenção de piscinas: hipoclorito de cálcio e dicloro isocianurato, ambos agentes de cloração, além de um ácido regulador de pH. Quando qualquer agente de cloro entra em contato com um ácido, ocorre uma reação química que libera cloro gasoso, uma fumaça amarelo-esverdeada extremamente perigosa.
O professor Reinaldo Bazito explica que, ao ser inalado, o gás cloro reage com a água das mucosas do nariz, garganta e pulmões, produzindo substâncias altamente irritantes. "Provoca irritação profunda nas vias aéreas, causa sensação de queimação, pode levar a edema pulmonar e, em alta concentração, pode ser fatal", alerta o especialista.
Negligência na academia: manobrista realizava tratamento sem qualificação
A investigação do caso revelou que o responsável pelo tratamento da piscina não era um profissional qualificado, mas sim o manobrista da academia, que recebia instruções do proprietário por mensagens, sem técnica adequada ou equipamentos de proteção. Testemunhas relataram que um balde próximo à borda da piscina começou a soltar uma fumaça amarelada e irritante momentos antes do incidente.
Nadadores presentes começaram a sentir ardência nos olhos, queimação na garganta, falta de ar e sufocamento. A rápida propagação do gás no ambiente fechado resultou na intoxicação grave de várias pessoas, incluindo Juliana Bassetto, que não resistiu. Um adolescente de 14 anos também foi internado em estado grave, mas já recebeu alta médica.
Falta de controle e fiscalização
O delegado Alexandre Bento, responsável pela investigação, destacou que a academia não mantinha o registro formal das medições de pH e cloro, como exige a legislação. "Eles assumiram completamente o risco de expor as pessoas ao contato com gases tóxicos e o resultado, infelizmente, foi a morte da Juliana", afirmou o delegado.
A polícia investiga o caso sob a perspectiva de negligência e exposição de frequentadores a gases tóxicos. Os três sócios da academia — Cesar Bertolo Cruz, Celso Bertolo Cruz e Cezar Miquelof Terração — não quiseram dar entrevista, mas seus advogados afirmaram em nota que os clientes permanecem à disposição das autoridades.
Consequências judiciais e alerta para prevenção
Na sexta-feira anterior ao incidente, a Justiça negou a prisão temporária dos empresários, pedida pela Polícia Civil. O caso continua sob investigação, com foco nas responsabilidades pela falta de qualificação profissional e controle adequado dos produtos químicos.
Especialistas enfatizam que, embora pequenas imprecisões sejam toleráveis no tratamento de piscinas, erros graves como a mistura de produtos incompatíveis podem ter consequências fatais. A tragédia serve como um alerta para a necessidade de qualificação profissional, controle rigoroso e cumprimento da legislação em estabelecimentos que utilizam produtos químicos perigosos.



