Alagamentos no Parque Cecap em Guarulhos: moradores culpam obras de megashow por solo impermeável
Moradores do Parque Cecap, em Guarulhos, na Grande São Paulo, enfrentaram graves alagamentos após o temporal do último domingo (25). A vizinhança atribui o problema às intervenções realizadas em um terreno da região para a realização do Guarulhos Fest Show, evento promovido pela prefeitura no fim do ano passado.
Obras teriam impermeabilizado o solo
Segundo os residentes, as obras deixaram o solo impermeável, agravando significativamente o escoamento da água da chuva. Durante a tempestade, ruas do bairro, localizado próximo ao Aeroporto Internacional de São Paulo, ficaram completamente tomadas pela água.
Vídeos enviados por moradores mostram enxurradas no acesso a condomínios da área. Eles afirmam que esse fenômeno não era frequente antes das intervenções no terreno, que tem mais de 60 mil metros quadrados e é cercado por três unidades de ensino e um grande conjunto habitacional.
Histórico do terreno e evento polêmico
O terreno pertence à Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano (CDHU) e, segundo os moradores, não tinha função pública há cerca de 15 anos. Em dezembro do ano passado, no entanto, o espaço foi usado para sediar o Guarulhos Fest Show, evento divulgado pela prefeitura e realizado entre os dias 5 e 8 de dezembro, com apresentações de artistas de sertanejo, rock, pagode e outros estilos.
A CDHU informou que cedeu o espaço em troca de abatimento de dívidas de IPTU com o município. Antes mesmo da festa, moradores já relatavam transtornos. A biomédica Bianca Xavier Stangari afirma que precisou deixar o apartamento em que morava por causa das condições provocadas pelos preparativos do evento.
“Foi necessário que eu me mudasse por conta da poeira e do barulho”, disse ela.
Controvérsias legais e impactos ambientais
A população tentou barrar a realização do evento. Em 4 de dezembro, um dia antes do início da festa, o Tribunal de Justiça de São Paulo determinou a suspensão das obras de terraplanagem, nivelamento de terra e outras intervenções no local. No entanto, a prefeitura conseguiu uma liminar no Supremo Tribunal Federal (STF), que autorizou a realização do show.
Com o evento em andamento, moradores chegaram a alugar medidores de decibéis para registrar o impacto sonoro. A estudante de comunicação Jéssica Teixeira Vieira afirmou que o barulho se estendia até a madrugada.
“Era muito perto. Na segunda-feira, que era aniversário de Guarulhos, essa festa foi até 2h, 3h da manhã”, relatou.
Mudanças no solo e consequências
Imagens feitas no fim de novembro mostram a preparação do terreno para o festival, com máquinas e caminhões atuando no local. Um trator com logotipo da prefeitura aparece removendo terra, enquanto outros veículos despejam resíduos de construção e asfalto no solo.
Moradores dizem que, ao longo de vários dias, o terreno foi recebendo entulho, pedras e outros materiais para a montagem dos palcos e da estrutura do evento. Segundo os relatos, a área, que antes tinha vegetação, mudou de aspecto, com o solo ficando mais escuro e menos permeável.
A partir disso, ruas que antes não alagavam passaram a registrar enxurradas durante chuvas fortes. O gestor ambiental Noel do Carmo Santos Alcatrão, morador do conjunto habitacional há décadas, afirma que os impactos ambientais começaram a ser sentidos após o festival.
“O que nunca aconteceu em 465 anos da cidade de Guarulhos está acontecendo agora. Esse solo, que era permeável, servia como esponja. Agora, essa área sofreu impacto ambiental. A gente espera reverter no futuro para tornar isso um parque e aproveitar os recursos hídricos que existem aqui”, explicou ele.
Posicionamento das autoridades
Em nota, a CDHU informou que cedeu o espaço em troca do abatimento de dívidas de IPTU com o município e afirmou que a área será usada como permuta, mas que o processo ainda está em tramitação. A companhia disse ainda que a responsabilidade pelo uso do terreno, durante a cessão precária ou após a cessão definitiva, é da Prefeitura de Guarulhos.
Também em nota, a prefeitura informou que a cidade foi impactada por uma forte chuva muito acima do esperado e que equipes de Zeladoria e da Defesa Civil realizam atendimentos emergenciais. A administração municipal afirmou que as intervenções no terreno tiveram licenciamento ambiental e projetos aprovados pelos órgãos competentes e que o terreno não tem relação com o excesso de chuvas que provocou o alagamento na rua mencionada.
Sobre a festa de 465 anos da cidade, a prefeitura disse que o evento foi realizado por uma empresa privada, sem custos para o município.