Tripulantes africanos sem visto permanecem confinados em navio no Porto de Fortaleza
Um navio de origem africana, que ficou à deriva por 61 dias no Oceano Atlântico antes de ser rebocado para o Porto de Fortaleza na última semana, mantém nove tripulantes ganenses confinados a bordo devido à falta de visto brasileiro. Dos onze membros da tripulação, apenas os dois europeus – um holandês e um albanês – possuem autorização para circular no território nacional.
Distinção no tratamento migratório
Conforme apurações da TV Verdes Mares, o tripulante holandês está hospedado em um hotel da capital cearense com recursos próprios, enquanto o albanês optou por permanecer no navio junto com os companheiros africanos. Os nove ganenses, por não possuírem visto, só podem transitar por território brasileiro na companhia de uma autoridade, o que os mantém praticamente confinados na embarcação.
Longa deriva no Atlântico
O navio, de propriedade de uma empresa da Mauritânia, partiu do Senegal com destino à Guiné-Bissau para providenciar atualizações documentais relacionadas ao novo proprietário. A viagem, que deveria durar cerca de 48 horas, transformou-se em um drama de mais de dois meses quando a embarcação sofreu um problema hidráulico após deixar o Porto de Dacar.
O capitão John Wesley Stuart relatou que a tripulação encontrou dificuldades técnicas para se comunicar, tendo apenas o sistema Very High Frequency (VHF) como meio de contato, o que limitava as comunicações a navios próximos. Em alguns momentos, conseguiram estabelecer contato com outras embarcações que ofereceram ajuda limitada.
Operação de resgate da Marinha
Quando estavam no meio do Oceano Atlântico, os tripulantes conseguiram contatar um navio holandês que, embora não pudesse rebocá-los, acionou a Marinha do Brasil. No dia 9 de março, o Navio-Patrulha Oceânico Araguari foi enviado para interceptar a embarcação africana, avaliar o estado da tripulação e prestar apoio com suprimentos.
Paralelamente, a Corveta Caboclo saiu de Salvador e seguiu para Fortaleza. Alguns dias depois, o Navio Rebocador de Alto-Mar Triunfo desatracou do porto de Natal, resgatou o navio estrangeiro e o conduziu até o Porto de Fortaleza, onde chegou em 27 de março.
"As ações referentes às atividades de Busca e Salvamento desenvolvidas pela Marinha do Brasil resultaram no salvamento do navio, na manutenção da segurança da navegação e na prevenção da poluição hídrica", afirmou o Vice-Almirante Jorge José de Moraes Rulff, Comandante do 3º Distrito Naval. "Porém, o êxito no cumprimento da missão reside na integridade física e psicológica dessas 11 vidas que poderão, em breve, voltar para os seus lares."
Condições precárias de saúde
De acordo com a Polícia Federal, os tripulantes foram resgatados em condições mínimas de higiene, com restrições no acesso à água potável, elevado nível de estresse psicológico e falta de comunicação com familiares. Na última quinta-feira (2), eles receberam atendimento médico completo na UPA da Praia do Futuro.
A Secretaria de Direitos Humanos do Ceará acompanhou o atendimento até as 19h daquele dia, e os tripulantes receberam cestas básicas para se alimentarem durante o feriadão. Jamina Teles, coordenadora da Política Estadual para Migrantes e Refugiados, relatou problemas graves de saúde entre os resgatados.
"Homens hipertensos que estavam há mais de 40 dias sem a medicação, com problemas também de diabetes e outras patologias", informou Teles. "Desde o momento que fomos acionados, a gente já está cuidando em dar essa manutenção com alimentação, no âmbito da saúde com a medicação, também no atendimento nas questões burocráticas migratórias."
Situação migratória em análise
A Polícia Federal atua na verificação da situação migratória dos tripulantes e na adoção das medidas administrativas cabíveis, em articulação com a Marinha do Brasil e demais órgãos competentes. Enquanto isso, o capitão John Wesley Stuart espera que, nos próximos dias, a empresa responsável providencie o pagamento do conserto da embarcação para que possam retornar ao Porto de Dacar, de onde partiram.
A situação destaca os desafios enfrentados por tripulações estrangeiras em situações de emergência marítima e as complexidades do sistema migratório brasileiro quando confrontado com casos humanitários inesperados.



