Naufrágio no Encontro das Águas em Manaus deixa três mortos e cinco desaparecidos
O trágico acidente marítimo ocorrido na sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026, no famoso ponto turístico do Encontro das Águas, em Manaus, continua a mobilizar equipes de resgate e autoridades. A lancha de passageiros Lima de Abreu XV, que partiu de Manaus com destino a Nova Olinda do Norte, afundou após enfrentar condições adversas na confluência dos rios Negro e Solimões.
Detalhes do acidente e operação de resgate
Segundo informações do Corpo de Bombeiros, a embarcação transportava 80 pessoas no momento do naufrágio. Até o momento, 71 passageiros foram resgatados sem ferimentos graves, mas o saldo trágico já conta com três mortos confirmados. O corpo do cantor gospel Fernando Grandêz, de 39 anos, foi encontrado, elevando o número de vítimas fatais. Cinco pessoas permanecem desaparecidas, em uma operação de busca considerada complexa pelas autoridades.
A advogada maritimista Jemima de Paula Soares, presidente da Comissão de Direito Marítimo e Portuário da OAB-AM, explicou que o Encontro das Águas representa um dos pontos mais desafiadores para navegação na região amazônica. "Além de ser um ponto de confluência de embarcações de todos os tipos, ele é um ponto de encontro de dois rios com velocidades diferenciadas. As embarcações têm que trafegar ali com baixa velocidade, estabelecendo sempre a comunicação via rádio", destacou a especialista.
Investigações em andamento e complexidade das buscas
A Marinha do Brasil abriu inquérito administrativo para apurar as causas do acidente, enquanto a Polícia Civil também iniciou investigação criminal. O comandante da lancha, identificado como José Pedro da Silva Gama, de 42 anos, foi preso em flagrante no porto de Manaus, mas liberado após pagamento de fiança. Ele responderá por homicídio culposo, mas encontra-se foragido após a Justiça ter decretado sua prisão preventiva.
Jemima de Paula Soares ressaltou a importância de aguardar os laudos técnicos antes de especular sobre as causas do naufrágio. "Falar sobre possíveis causas de um naufrágio sem um laudo técnico, sem um relatório final da parte mais técnica, que é a autoridade marítima, eu vejo como pura especulação. Depois de um acidente tão trágico, o foco deve ser o apoio às famílias", afirmou a advogada.
As operações de busca enfrentam dificuldades significativas devido às características únicas do Encontro das Águas. O tenente Muniz, do Corpo de Bombeiros, explicou que "fatores hidrodinâmicos do Encontro das Águas interferem muito nas operações de busca. Nós temos mudanças de direcionamento das correntes de arrasto, principalmente do Rio Solimões, que tem uma correnteza mais forte. A profundidade é muito grande também, cerca de 50 metros no local do naufrágio".
Recursos mobilizados e relatos das vítimas
Uma força-tarefa envolvendo mergulhadores, embarcações, drones, um helicóptero e três sonares está atuando na região. Equipes de Itacoatiara e Parintins também participam da operação, considerando a possibilidade de as vítimas terem sido levadas para áreas mais distantes pelas fortes correntes. O Grupamento de Bombeiros Marítimo do Estado de São Paulo enviou seis militares, incluindo um capitão, para reforçar os trabalhos.
Relatos de sobreviventes revelam momentos de tensão durante o acidente. Uma passageira que ficou à deriva gravou vídeo alertando sobre as condições perigosas. "Falei para ir devagar", afirmou a mulher no registro, referindo-se ao banzeiro (ondas turbulentas características da região) que atingia a embarcação. Vídeos obtidos pela Rede Amazônica mostram várias pessoas na água, incluindo crianças, em cima de botes salva-vidas aguardando socorro, enquanto embarcações próximas tentavam auxiliar no resgate.
O Encontro das Águas, fenômeno natural onde os rios Negro e Solimões correm lado a lado por quilômetros sem se misturar completamente, atrai turistas de todo o mundo, mas apresenta desafios únicos para navegação. A advogada maritimista lembrou que, embora a fiscalização naval seja diária e os comandantes sejam habilitados pela Marinha, conhecendo normas como o RPEAN (Regulamento para Evitar Abalroamentos no Mar), a segurança depende também da responsabilidade individual dos operadores das embarcações.