A inovação não pode ser tratada como uma atividade pontual, que só ocorre quando a empresa dispõe de caixa sobrando. A afirmação é de Maria Cristina Frias, diretora de redação do Valor, durante o evento Inovação 360, realizado em São Paulo. Para ela, as companhias que adotam essa postura reativa perdem espaço no mercado e comprometem sua sustentabilidade no longo prazo.
Inovação como prioridade permanente
Segundo a diretora, a inovação deve estar incorporada à estratégia central de qualquer negócio, independentemente do momento financeiro. “Não é porque o caixa está apertado que a empresa deve parar de investir em novos produtos, processos ou modelos de negócio. Pelo contrário, é justamente nesses períodos que a inovação se torna ainda mais necessária para garantir a sobrevivência e a diferenciação”, afirmou Frias.
Ela destacou que as organizações que conseguem manter um fluxo constante de inovação, mesmo em cenários adversos, são as que se destacam no longo prazo. A diretora citou exemplos de empresas que, mesmo durante crises econômicas, continuaram a desenvolver soluções inovadoras e saíram fortalecidas.
Riscos de depender do caixa
O principal risco de vincular a inovação à disponibilidade de caixa, segundo Frias, é a perda de competitividade. Quando uma empresa interrompe seus projetos de inovação, ela abre espaço para que concorrentes mais ágeis assumam a dianteira. Além disso, a retomada de projetos paralisados exige retrabalho e investimentos ainda maiores.
“A inovação não é um custo, é um investimento. Empresas que enxergam dessa forma conseguem priorizar recursos e talentos para áreas que vão gerar retorno futuro”, explicou. Ela também ressaltou que a inovação não se limita a tecnologia ou P&D, mas envolve também modelos de gestão, atendimento ao cliente e processos internos.
Dados sobre inovação no Brasil
De acordo com a Pesquisa de Inovação (Pintec) do IBGE, apenas cerca de 30% das empresas brasileiras implementaram algum tipo de inovação entre 2018 e 2020, um percentual abaixo da média dos países desenvolvidos. Frias usou esses dados para reforçar que ainda há um longo caminho a percorrer no país.
“Precisamos mudar a cultura empresarial brasileira. A inovação precisa ser vista como parte do dia a dia, e não como um projeto isolado”, destacou. A diretora também mencionou que o ecossistema de startups e os programas de aceleração têm contribuído para disseminar essa mentalidade, mas ainda é insuficiente para transformar a realidade da maioria das empresas.
Papel da liderança
Frias enfatizou que a alta liderança tem papel fundamental na criação de um ambiente propício à inovação. Os líderes devem incentivar a experimentação, tolerar erros e alocar recursos de forma contínua, mesmo que em pequena escala. “Não é preciso um grande orçamento para começar. O importante é ter uma estratégia clara e pessoas comprometidas”, afirmou.
A diretora também alertou para o risco de as empresas se sentirem confortáveis com o status quo, especialmente em setores tradicionais. “O mundo muda rápido. Quem não inova, mesmo tendo caixa, corre o risco de se tornar obsoleto”, concluiu.
Inovação e cultura organizacional
Para que a inovação seja realmente estratégica, é necessário que ela esteja enraizada na cultura organizacional. Isso significa que todos os colaboradores, independentemente da área, devem se sentir encorajados a propor novas ideias e melhorias. Frias sugeriu que as empresas criem canais de comunicação abertos e reconheçam iniciativas inovadoras.
Além disso, a diretora destacou a importância de métricas para acompanhar o retorno dos investimentos em inovação. “Não adianta investir sem medir resultados. É preciso ter indicadores claros para saber se os esforços estão gerando valor”, disse. Ela recomendou que as empresas adotem KPIs específicos para inovação, como número de novos produtos lançados, receita proveniente de inovações e tempo de lançamento.
Parcerias e ecossistema de inovação
Outra forma de fortalecer a inovação sem depender exclusivamente do caixa interno é por meio de parcerias com universidades, startups e centros de pesquisa. Essas colaborações permitem acesso a conhecimento e tecnologias de ponta com custos compartilhados. Frias citou exemplos de empresas que criaram laboratórios conjuntos com instituições acadêmicas para desenvolver soluções inovadoras.
“A inovação aberta é uma tendência crescente. Ninguém consegue inovar sozinho. É preciso estar conectado a um ecossistema que potencialize as capacidades internas”, afirmou. Ela também mencionou que o governo pode incentivar a inovação por meio de políticas públicas, como linhas de financiamento e incentivos fiscais.
Em resumo, a mensagem central da diretora é clara: inovação não é um luxo, mas uma necessidade estratégica. As empresas que a tratarem como prioridade, independentemente da situação do caixa, estarão mais preparadas para enfrentar os desafios do futuro e conquistar vantagem competitiva sustentável.



