Pesquisadora da UFSC sofre deboche após vaquinha para visto de doutorado na Austrália
Pesquisadora sofre deboche após vaquinha para visto na Austrália

Talita Motta Beneli, doutoranda em ecologia pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), foi aprovada para um estágio de pesquisa na Austrália pelo Programa Institucional de Doutorado Sanduíche no Exterior (PDSE) da Capes. O visto exigido pela universidade australiana, porém, precisava ser emitido por uma agência particular, com custo de R$ 8 mil não coberto pela bolsa. Sem essa verba, Talita recorreu a uma vaquinha online. Ao compartilhar o link com uma influenciadora que admirava, esperava apoio, mas foi surpreendida por um vídeo debochando de quem pede dinheiro na internet, gerando uma onda de ofensas.

O custo do visto e a vaquinha

O edital do PDSE cobre mensalidade, auxílio deslocamento, auxílio instalação e seguro-saúde, mas exclui taxas administrativas e acadêmicas. Talita já sabia que os valores estavam defasados — o auxílio para passagem, por exemplo, é de cerca de R$ 8 mil, enquanto uma passagem de ida e volta para a Austrália custa aproximadamente R$ 11 mil. Ainda assim, ela havia feito ajustes para cobrir os custos. No entanto, quando a universidade exigiu que o visto (subclass 408, sem permissão para trabalho remunerado) fosse processado por uma agência parceira, o gasto extra de R$ 8 mil tornou-se inviável.

O orientador de Talita tentou negociar uma exceção com a universidade, mas o pedido foi negado. Com uma bolsa de R$ 3,5 mil da Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Estado de Santa Catarina (Fapesc) — valor ligeiramente superior ao pago pela Capes (R$ 3,1 mil para doutorado) — e sem margem para reservas, Talita viu na vaquinha a única saída.

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A repercussão nas redes sociais

Talita enviou o link da campanha a uma influenciadora com milhões de seguidores, explicando sua pesquisa sobre a alimentação de peixes em recifes de coral. Em vez de divulgar a vaquinha, a influenciadora publicou um vídeo criticando quem pede dinheiro na internet para “financiar sonhos”. Embora sem citar Talita, o vídeo gerou milhares de comentários ofensivos. “As pessoas começaram a me xingar de vagabunda, falar que eu tinha que ir trabalhar, que eu era preguiçosa, sem nem saber o que estava acontecendo”, desabafou a pesquisadora.

Talita se identificou nos comentários, explicando o contexto acadêmico e as dificuldades da ciência no Brasil. Após dois dias, um movimento de apoio se formou, e a vaquinha atingiu a meta de R$ 8 mil. “A gente percebe que, fora da pesquisa, as pessoas não sabem o que está acontecendo com a ciência. O financiamento vem sendo cortado ano após ano”, lamentou.

Os valores das bolsas de pesquisa no Brasil

O episódio escancara as condições precárias dos pesquisadores brasileiros. As bolsas pagas por Capes e CNPq são de R$ 2,1 mil para mestrado, R$ 3,1 mil para doutorado, R$ 5,2 mil para pós-doutorado júnior e R$ 5,5 mil para sênior. Há variações: a Fapesp, por exemplo, paga a partir de R$ 3,27 mil para mestrado e R$ 5,79 mil para pós-doutorado. Apesar disso, especialistas apontam que esses valores são insuficientes para viver em capitais como Florianópolis e não refletem a carga horária e a importância científica do trabalho.

Além da baixa remuneração, a instabilidade agrava o quadro. As bolsas são classificadas como Despesa Primária Discricionária, sujeitas a cortes e contingenciamentos. Em junho de 2024, a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e a Academia Brasileira de Ciências (ABC), junto a mais de 35 entidades, divulgaram nota pedindo que o salário de pesquisadores seja tratado como compromisso assumido, sem risco de interrupção. “A bolsa não é despesa discricionária qualquer — é a contraprestação do trabalho de quem dela depende para subsistir e pesquisar. Seu atraso não gera economia: gera insegurança jurídica, evasão de talentos e interrupção de pesquisas que o país já financiou”, afirmam as entidades.

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A importância da pesquisa de Talita

A pesquisa de Talita investiga o que os peixes comem nos recifes, revelando a função de cada espécie no ecossistema. Algumas espécies controlam o crescimento de algas; outras dependem diretamente dos corais. Quando uma desaparece, sua função pode não ser exercida por outra, ampliando os riscos para o ecossistema. Talita compara recifes em diferentes partes do mundo, e a ida à Austrália preencherá uma lacuna. Os resultados ajudarão a nortear estratégias de conservação, especialmente no Brasil, onde os recifes estão cada vez mais fragilizados.