Uma teoria econômica formulada há mais de um século voltou ao centro do debate sobre a economia americana. Segundo o Deutsche Bank, o conceito do sueco Knut Wicksell, de 1898, ajuda a explicar por que os investidores continuam apostando nos Estados Unidos mesmo com a dívida pública em níveis recordes. A economia do país cresce em ritmo forte, mas o endividamento acumulado já alcança cerca de US$ 39,77 trilhões, com pagamentos de juros estimados em US$ 24 bilhões por semana.
O que é a taxa natural de juros?
Wicksell propôs que a inflação e a instabilidade econômica surgem quando as taxas de juros de mercado, definidas pelo Federal Reserve e pelos bancos, se afastam da chamada taxa natural de juros. Essa taxa natural seria o retorno que os investidores obtêm ao aplicar na economia como um todo, como em ações, em vez de manter dinheiro em depósitos ou títulos. No caso dos EUA, a economia é tão pujante que a taxa natural está bem acima das taxas oficiais, o que mantém os juros da dívida relativamente baixos para o tamanho do endividamento.
Déficits financiados pelo setor de tecnologia
Em nota do Chief Investment Office do Deutsche Bank, os estrategistas Ulrich Stephan, Dirk Steffen e Elena Ahonen argumentam que os déficits americanos estão sendo cada vez mais financiados pelo setor de tecnologia. O alto retorno sobre o patrimônio líquido (ROE) em setores como o de tecnologia estaria complementando os fatores estruturais que historicamente atraíram investimentos para os EUA. "Pode-se argumentar que os déficits dos EUA estão, em efeito, sendo cada vez mais financiados por seu setor de tecnologia", escrevem.
Vivendo acima dos meios, mas com atratividade
A equipe reconhece que os EUA estão "fundamentalmente vivendo acima de seus meios", como alertam nomes como Ray Dalio, da Bridgewater Associates. No entanto, o papel único do dólar no sistema financeiro global e a confiança na economia americana permitiram que o país desfrutasse de taxas de juros de mercado livres de risco abaixo de sua taxa natural estimada. Até agora, os credores não exigiram retornos drasticamente mais altos, mas essa vantagem pode estar diminuindo.
O risco de um loop fiscal
O domínio americano em inteligência artificial e tecnologia cria um ciclo fiscal perigoso: se o governo parar de investir em IA, a confiança no setor pode ser abalada, mas esse gasto exige mais endividamento. A economia dos EUA pode ser vista, ao mesmo tempo, como beneficiária e vítima do próprio sucesso. Se as taxas de crescimento continuarem ofuscadas pelos déficits, as percepções de risco podem mudar, provocando uma recalibração do mercado, como já alertou Jamie Dimon, CEO do JPMorgan Chase.



