Fala de Lula sobre Paraguai reacende crise e debate histórico
Fala de Lula sobre Paraguai reacende crise e debate hist

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou, na última sexta-feira (24), que "um belo dia o Paraguai resolveu invadir o Brasil". A declaração ocorreu durante evento no interior de São Paulo para defender investimentos na indústria de defesa. "A gente gosta de paz, mas a gente não pode se esquecer que um belo dia o Paraguai resolveu invadir o Brasil. Invadiu Corumbá, ao mesmo tempo invadiu o Uruguai, invadiu a Argentina. E aquela guerra que parecia que era nada durou cinco anos", disse o presidente.

A fala foi considerada uma simplificação das causas do conflito por autoridades paraguaias. O governo de Santiago Peña convocou o embaixador brasileiro em Assunção, José Antônio Marcondes de Carvalho, para esclarecimentos. O Congresso do Paraguai aprovou manifestações de repúdio. A crise reabriu uma disputa historiográfica que permanece sensível no Paraguai mais de 160 anos após o fim da Guerra do Paraguai.

Versão revisionista dominou Brasil durante ditadura

Por décadas, a versão mais contada nas escolas brasileiras atribuiu o conflito a uma suposta interferência da Grã-Bretanha. Popularizada por ideólogos de esquerda contrários ao regime militar (1964-1985), a narrativa sustentava que o Paraguai era um país em desenvolvimento, com industrialização e justiça social, e que os ingleses teriam financiado a guerra para destruir essa experiência. O livro "Genocídio Americano: A Guerra do Paraguai", do jornalista Júlio José Chiavenato, publicado em 1979, tornou-se o principal difusor dessa versão. O próprio historiador Francisco Doratioto admite ter ensinado essa narrativa quando professor em São Paulo. "Eu ensinei isso", confessou.

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Doratioto, professor aposentado da Universidade de Brasília (UnB) e autor de "Maldita Guerra: Nova História da Guerra do Paraguai" (2002), contesta essa leitura. "Onde está qualquer documento que prove que foi a Inglaterra? Não existe um documento oficial, não existe nada que mostre que o governo inglês tinha interesse em fazer uma guerra na região", disse à BBC News Brasil. Ele critica o método de Chiavenato: "Ele não é historiador e comete erros de metodologia". Um exemplo é a acusação de que o Duque de Caxias teria mandado jogar cadáveres de soldados mortos por cólera no rio Paraguai para contaminar o inimigo. "Os cadáveres nadaram contra a corrente? Isto é absurdo", ironiza. O rio corre em sentido contrário ao necessário para a suposta arma biológica. A epidemia, na verdade, matou cerca de 4 mil brasileiros, e Caxias lamentou em carta à mulher ter perdido "um exército" antes do combate.

Doratioto também questiona a ideia de um Paraguai industrializado e protossocialista. "Indústria pesada no Paraguai em 1864? Praticamente não existia. Tinha uma fundição", afirma. O país era agrícola, com mão de obra explorada na colheita de erva-mate, e a modernização tinha fins militares. Na Argentina, essa versão revisionista foi adotada pela direita xenófoba desde as décadas de 1920 e 1930, enquanto no Brasil a esquerda reciclava o discurso anti-imperialista contra os Estados Unidos.

O que dizem os documentos

A Guerra do Paraguai durou de dezembro de 1864 a março de 1870. O Paraguai, com cerca de 400 mil habitantes, enfrentou a Tríplice Aliança — Brasil, Argentina e Uruguai — que somava mais de 11 milhões de pessoas. O resultado foi devastador: a população paraguaia caiu para menos de 190 mil. "90% dos homens morreram. Do sexo masculino, sobraram apenas idosos e crianças", afirma Doratioto.

Evidências documentais, segundo o historiador, indicam que a Inglaterra não queria o conflito. Uma carta do embaixador britânico Edward Thornton, datada de 7 de dezembro de 1864, cinco dias antes da declaração de guerra paraguaia, oferecia mediação entre Paraguai e Brasil. Quanto aos empréstimos ingleses a brasileiros e argentinos, Doratioto argumenta: "A lógica do capital não tem nacionalidade. O capital está em busca de remuneração e garantia". Ele lembra que cerca de 12% das despesas de guerra do Brasil foram bancadas com empréstimos estrangeiros.

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Por que a guerra começou

Desde a independência, em 1811, o Paraguai vivia isolado, sem acesso ao mar e dependente da exportação de erva-mate e madeira. A elite de Buenos Aires tentava subordinar as antigas províncias do Vice-reino do Rio da Prata, mas o país resistiu. O ditador Gaspar de Francia isolou o Paraguai e criou uma Igreja Católica própria. Seu sucessor, Carlos Antonio López, tentou uma abertura controlada e investiu em armamentos, com apoio do Império Brasileiro, que queria conter a Argentina.

O filho de López, Francisco Solano López, foi quem declarou guerra ao Brasil em 13 de dezembro de 1864, véspera da invasão da província de Mato Grosso. Para o historiador Moniz Bandeira, a motivação era econômica: o país precisava de uma saída para o mar para aumentar exportações. Contudo, Doratioto ressalta que o Paraguai tinha agricultura de subsistência, com técnicas medievais, e que a indústria local era mínima.

Atrocidades e legado

Doratioto confirma as atrocidades cometidas pelas tropas brasileiras, como matar crianças que se disfarçavam de soldados, mas contextualiza: "Guerra é sempre uma selvageria. Todos os chefes militares em combate deram ordem para matar". Ele avalia que a figura de Caxias, patrono do Exército, ainda não foi suficientemente explorada pelos historiadores. A desmoralização do marechal, durante a ditadura, era uma forma de desmoralizar o regime militar.

A crise atual mostra como a memória da guerra ainda divide opiniões. O governo paraguaio também pediu a devolução de canhões de guerra levados pelo Brasil, tema que permanece em aberto na relação bilateral.