Debate em Noronha discute manejo de tubarões e segurança
Noronha debate manejo de tubarões e segurança

O Conselho Distrital de Fernando de Noronha realizou, na terça-feira (4), uma reunião para discutir o aumento da presença de tubarões na ilha, abordando medidas de segurança, monitoramento e alternativas de manejo da espécie. O encontro contou com a participação de representantes de pescadores, pesquisadores, ambientalistas e órgãos públicos, que apresentaram visões divergentes sobre como lidar com a situação.

Posições divergentes sobre captura e conservação

Durante o debate, representantes de pescadores e alguns conselheiros defenderam a captura de tubarões como forma de reduzir a população e minimizar prejuízos à atividade pesqueira. Em contrapartida, pesquisadores e ambientalistas enfatizaram a importância da conservação e do monitoramento dos animais, alertando para os riscos de desequilíbrio ecológico.

O presidente do Conselho Distrital, Milton Luna, expressou preocupação com o aumento do número de tubarões na ilha. Segundo ele, estudos indicam que a redução da população de golfinhos pode estar relacionada ao crescimento da presença de tubarões-tigres. Luna também relatou que pescadores têm enfrentado prejuízos, pois os tubarões atacam os peixes já fisgados antes que sejam recolhidos para as embarcações.

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Pesquisador questiona superpopulação

O engenheiro de pesca Léo Veras, que pesquisa tubarões em Fernando de Noronha há mais de 30 anos, apresentou um histórico da presença dos animais na ilha e comparou a situação com outras regiões onde há tubarões. Veras afirmou que não é possível confirmar a existência de uma superpopulação. "Na natureza, os próprios animais regulam a população. Quando há mais filhotes, como vimos recentemente na Baía do Sueste, muitos acabam servindo de alimento para tubarões adultos. Existe uma diferença entre a percepção das pessoas e o equilíbrio natural da espécie", destacou.

Incidentes registrados desde 1992

De acordo com o levantamento mais recente do Comitê Estadual de Monitoramento de Incidentes com Tubarões (Cemit), Fernando de Noronha registrou 14 incidentes com tubarões desde 1992. Os casos mais graves ocorreram em 2022, quando uma menina de 8 anos foi atacada e perdeu uma perna, e em 2015, quando o turista Márcio de Castro foi mordido por um tubarão-tigre e teve um braço amputado. Ambos os incidentes aconteceram na Praia do Sueste.

Em janeiro deste ano, a advogada Tayane Dalazen foi mordida na perna por um tubarão enquanto praticava mergulho em apneia em frente à Associação Noronhense de Pescadores (Anpesca), no Porto de Santo Antônio. Ela sofreu ferimentos leves.

ICMBio alerta para alimentação irregular

O coordenador de Ordenamento Territorial do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) em Fernando de Noronha, Mário Douglas Fortini, afirmou que a principal preocupação do órgão é a ocorrência de incidentes na região da Anpesca, onde pessoas alimentam tubarões de forma irregular. "Isso é grave. Noronha tem registrado incidentes por causa da irresponsabilidade de pessoas que alimentam tubarões para fazer fotos. Reforçamos a fiscalização na região e essa prática precisa acabar", declarou.

Pescadores relatam prejuízos diários

O pescador Marlos Amarante afirmou que a categoria é uma das mais afetadas pela presença dos tubarões. "No dia a dia, cerca de 90% dos peixes fisgados são levados pelos tubarões antes de chegarem ao barco. Os pescadores estão sendo muito prejudicados. É preciso discutir um plano de manejo", disse. O conselheiro distrital Ailton Araújo Júnior também defendeu a adoção de medidas de manejo. "É preciso fazer o manejo e permitir a captura de espécies como o tubarão-tigre para reduzir a quantidade de animais", afirmou.

Turismo e pesquisa

O coordenador do Projeto Tubarões e Raias, Fábio Borges, afirmou que a presença de tubarões não prejudica o turismo. Segundo ele, muitos visitantes escolhem Fernando de Noronha justamente para observar esses animais. "O tubarão vivo vale muito mais do que morto. É um diferencial para o turismo. O desafio é atrair visitantes conscientes e preparados para esse tipo de experiência", destacou.

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O pesquisador Paulo Oliveira, da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), informou que a instituição monitora a população de tubarões em Fernando de Noronha para subsidiar medidas de gestão e conservação. Segundo ele, o Projeto Ecotuba desenvolve ações em parceria com o Governo de Pernambuco, incluindo atividades de educação ambiental voltadas para moradores e turistas.

Audiência pública marcada

Ao final da reunião, o presidente do Conselho Distrital, Milton Luna, anunciou a realização de uma audiência pública no dia 3 de setembro para dar continuidade ao debate sobre a presença de tubarões e possíveis medidas para Fernando de Noronha.