O dólar fechou julho com queda de cerca de 1,8% frente ao real, cotado a R$ 5,06, acumulando uma desvalorização de 7,6% no ano. Apesar do desempenho positivo da moeda brasileira, os principais bancos de investimento do mercado adotam cautela e enxergam riscos de desvalorização do real nos próximos meses, especialmente com a aproximação das eleições e a possibilidade de novo aperto monetário nos Estados Unidos.
Itaú BBA vê divergência entre ativos e espaço para queda do real
Em relatório recente, a equipe de estratégia do Itaú BBA apontou uma forte divergência entre as classes de ativos no Brasil. Enquanto a renda fixa reflete um cenário pessimista, com mais de 80% das posições em modo 'bear' (negativo), o câmbio é o mais otimista, e a Bolsa fica no meio-termo, ainda com viés negativo. Para o banco, essa divergência sugere que há espaço para desvalorização da moeda brasileira.
A instituição manteve suas estimativas de dólar a R$ 5,30 em 2026 e R$ 5,50 em 2027. Embora reconheça que o real tem sido beneficiado pela melhora dos termos de troca após a escalada do conflito no Oriente Médio e pelo diferencial de juros ainda elevado, o banco vê limitações para uma apreciação mais intensa da moeda.
Fatores que podem pressionar o real
Segundo o Itaú BBA, dois fatores devem ganhar peso nos próximos meses: a expectativa de aperto monetário adicional nos Estados Unidos e a manutenção de prêmios de risco elevados no mercado doméstico. Na visão dos economistas do banco, esse conjunto de fatores deve favorecer uma recuperação do dólar global e reduzir o apetite por ativos de risco, contribuindo para uma tendência de desvalorização gradual do real até o fim do ano.
O Morgan Stanley também apontou que o real já não parece tão atraente para posições compradas direcionais como esteve nos últimos meses. Na avaliação da instituição, o cenário de curto prazo se tornou mais equilibrado à medida que os fluxos para o Brasil perderam intensidade, parte das posições favoráveis ao real começou a ser desmontada e os ruídos eleitorais surgiram antes do esperado.
Tarifas dos EUA e eleições adicionam incertezas
Para o Morgan Stanley, as tarifas anunciadas recentemente pelos Estados Unidos para parte das importações brasileiras e a divulgação de novas pesquisas eleitorais adicionam uma fonte extra de incerteza ao mercado. Embora o carrego elevado continue funcionando como proteção para a moeda, o banco avalia que o real tem menos potencial para superar seus pares emergentes no curto prazo.
O Goldman Sachs, por sua vez, reconhece que o real tem fundamentos sólidos, ressaltando que a moeda brasileira continua entre as de melhor desempenho no último mês, beneficiada pela melhora dos termos de troca do país e por um ambiente mais favorável aos mercados emergentes. Segundo a instituição, a valorização recente do real foi amplamente justificada pelo aumento dos preços das commodities exportadas pelo Brasil e por um contexto global mais benigno para ativos de risco.
Goldman Sachs alerta para risco eleitoral
O banco acredita que um cenário de dólar global mais fraco, combinado com preços elevados de petróleo, ainda poderia sustentar algum desempenho adicional da moeda brasileira. No entanto, o Goldman também chama atenção para o avanço do calendário eleitoral, com maior força em agosto. As convenções partidárias para confirmação dos candidatos estão em andamento e o prazo oficial para registro das candidaturas termina em 15 de agosto.
Para os estrategistas do banco, o perfil de risco-retorno de posições compradas em real tende a ficar menos favorável à medida que a eleição se aproxima, já que movimentos abruptos provocados por notícias políticas podem superar os ganhos proporcionados pelo diferencial de juros. Além da disputa eleitoral, a instituição observa deterioração das contas fiscais brasileiras ao longo do ano. Com a dívida pública em trajetória ascendente, o mercado deve ficar cada vez mais sensível aos impactos que diferentes resultados eleitorais podem ter sobre a condução da política fiscal.
Do lado doméstico, o Goldman vê espaço para o real continuar relativamente resiliente mesmo diante da retomada do ciclo de cortes da Selic, desde que a inflação siga mostrando sinais de moderação. A avaliação é que a redução dos juros nominais será parcialmente compensada pela manutenção de taxas reais ainda elevadas.
Bank of America mantém visão favorável ao real
Já o Bank of America (BofA) mantém uma visão relativamente favorável para o Brasil dentro do universo de emergentes. Em estudo sobre moedas globais, o banco concluiu que o real oferece uma relação mais atraente entre valuation e diferencial de juros do que outras moedas latino-americanas. A instituição cita o peso colombiano como um exemplo de moeda que oferece carrego superior, mas que estaria significativamente mais valorizada em relação aos seus fundamentos. Nesse contexto, o real aparece como uma alternativa mais equilibrada.
A leitura reforça avaliação anterior do BofA de que, mesmo em um cenário de fortalecimento do dólar global, os ativos do Brasil possuem condições para resistir melhor que outros mercados emergentes, graças ao elevado diferencial de juros e aos fundamentos relativamente mais sólidos.



