Aos 142 anos de seu nascimento, Cornélio Pires é lembrado como um dos responsáveis por levar a cultura caipira ao cotidiano do brasileiro no início do século XX. Sua trajetória começou no jornalismo, como faxineiro em uma redação em Tietê, interior de São Paulo, mas sua veia artística o consagrou como um dos escritores mais vendidos da década de 1920.
Trajetória literária e o dialeto caipira
Pedro Massa, presidente do Instituto Cornélio Pires em Tietê, informa que o artista publicou 24 livros. Entre eles, destaca-se "As Estrambóticas Aventuras de Joaquim Bentinho", de 1924, um clássico da literatura caipira. "Os livros foram publicados antes dele retornar para Tietê, onde nasceu e passou os anos finais da vida. A literatura caipira dele era diferente, pois ele escrevia de uma forma dialetal, que é a mesma forma que o Chico Bento 'fala' nos gibis", descreve Pedro.
Ana Luísa Pires, sobrinha-neta do artista, conta que a própria mãe foi proibida de ler os livros dele durante a infância, pois alguns familiares consideravam a escrita "errada". "A minha avó não deixava minha mãe ler, mesmo ela sendo uma pessoa que lê muito. Ela dizia que o Cornélio escrevia 'errado' e, consequentemente, não queria que ela lesse 'errado'. Ela chegou a contratar uma pessoa para orientar minha mãe sobre os livros que ela poderia ler", relata.
Dificuldade de leitura e reconhecimento acadêmico
Pedro Massa explica que a literatura dialetal de Cornélio era considerada difícil para o consumidor comum, devido às variações linguísticas. "Cornélio tinha uma literatura bem complicada para quem estava começando a ler livros. Um adulto com certeza vai entender melhor do que uma criança, mas ainda assim pode ser difícil. Ele trabalhava bastante com o dialeto caipira", afirma.
Apesar da contribuição para a cultura nacional, Cornélio não foi agraciado com nenhum título na Academia Brasileira de Letras. "Os classicistas intelectuais da época tinham um movimento contra ele. Cornélio não conseguiu entrar em nenhuma academia e não foi agraciado com nenhum título até hoje. Ele não tem reconhecimento como intelectual mesmo inspirando escritores famosos, como Monteiro Lobato", lamenta Pedro.
Influência e legado cultural
O trabalho de Cornélio Pires tornou-se um instrumento de pesquisas etnológicas e culturais em todo o país. Ele ficou conhecido como "o bandeirante do folclore paulista" por catalogar estilos caipiras de acordo com a região geográfica, incluindo comida, música, religiosidade e forma de falar. "Cornélio estudou e mostrou os caipiras do médio e alto Tietê, do Vale do Jequitinhonha e outras regiões. Ele foi uma pessoa que estudou a questão do folclore paulista e, depois, regional. Por isso que ele é considerado o bandeirante do folclore paulista: porque o trabalho artístico dele também serve como registro da formação do povo paulista", complementa Pedro.
Personagens e criatividade além dos livros
Diferente de Jeca Tatu, de Monteiro Lobato, os caipiras de Cornélio eram espertos e conscientes, como Joaquim Queima-Campo. "Joaquim foi o personagem do Cornélio que mais fez sucesso. Ele representava o caipira como uma pessoa inteligente, esperta, consciente, diferente e sensível. Mesmo assim, era folclore puro e Monteiro Lobato com certeza 'bebeu da fonte' dele", afirma Pedro.
Cornélio também criou o almanaque "O Sacy" em 1927, com charges provocativas sobre política e questões ambientais. "Cornélio era uma pessoa que tinha uma visão à frente do tempo com relação à natureza, à preservação ambiental. Na década de 30, ele já falava sobre desmatamento e era abertamente contra a caça de animais", lembra Pedro.
Últimos anos e legado social
Cornélio Pires morreu em 17 de janeiro de 1958, em São Paulo, vítima de câncer na garganta. Foi enterrado no Cemitério Municipal de Tietê, de pijama e descalço, conforme seu pedido. "No meio dos caminhos da vida, Cornélio conheceu o kardecismo, que tem o altruísmo como uma das principais bandeiras. As pessoas viviam às custas dele, pois ele ajudava todo mundo e estava bom assim. Quando ele morreu, ele pediu para ser enterrado assim pois doou todas as roupas", declara Pedro.
Ana Luísa comenta que Cornélio fundou a Casa dos Meninos, um local de acolhimento para jovens em vulnerabilidade social, que funciona desde 1957. "A intenção era que fosse uma escola técnica, mas ela é muito legal. Hoje, ela dá assistência ao Centro de Atenção Psicossocial (Caps) e é um braço da justiça restaurativa de Tietê", detalha.
Maria Osira Martim, também sobrinha-neta, expressa orgulho: "Eu tenho muito orgulho de ter um parente artista que ficou famoso com tanta coisa bacana que ele fez. Todos os lugares que eu vou e perguntam da minha família eu falo que sou parente do Cornélio Pires. As pessoas acham muito legal". Ana Luísa finaliza: "Nós temos um compromisso, enquanto família, que é ajudar. Faço sempre questão de estar em tudo que é relacionado a ele. Temos que acompanhar e lutar para manter o legado de uma figura tão importante para todos nós".



