Em novembro de 1986, Maria de Lourdes Vital deixou João Câmara com o marido e os 11 filhos, dias antes do grande tremor de magnitude 5,1. A família vendeu duas casas, um ponto comercial e um terreno por apenas 12 cruzeiros. "O povo trocava casa até por rapadura. Só queria era sair de lá", recorda. Como milhares de moradores, ela acreditou que não havia mais futuro ali.
O êxodo e o retorno
O município perdeu aproximadamente 10 mil moradores durante a crise sísmica. Três anos depois, em 1989, Maria de Lourdes retornou. Encontrou uma cidade marcada pela destruição, mas também pelo esforço de reconstrução. Hoje aposentada, aos 85 anos, ela segue vivendo em João Câmara. "Nossa vida está toda aqui", conta.
A sequência de tremores continuou por anos, alimentando o medo. "Você ter mesmo pequenos tremores, mas toda hora está tremendo, isso abala enormemente as pessoas", explica Joaquim Mendes Ferreira, professor aposentado e pioneiro da sismologia no Rio Grande do Norte.
Reconstrução física e social
Casas foram recuperadas, estruturas públicas reorganizadas e ações emergenciais começaram já em 1987. O ex-prefeito Ribamar Leite lembra da situação de emergência: "Grande parte da população trabalhava de forma autônoma ou fazia bicos. Essa parte ficou sem trabalhar. Nós precisávamos alimentar essa população".
A prefeitura organizou distribuição de alimentos. Um circo foi transformado em hospital de campanha. "Era o Circo da Cultura, que perambulava pelo Estado. A gente conseguiu trazer ele para amenizar o problema, dar uma alegria à população", conta Ribamar. Cerca de 1,2 mil casas entre João Câmara e Poço Branco foram construídas ou reconstruídas após o terremoto, muitas com ajuda do Exército Brasileiro.
O papel de Monsenhor Lucena
O monsenhor Luiz Lucena Dias, falecido em 2017, foi figura central na resistência. "Em 1986 fiquei o ano praticamente todo aqui, o povo dizia que se eu saísse o restante sairia também", disse em entrevista. Para Ribamar, "Monsenhor Lucena foi uma mola mestra que nos ajudou muito a aguentar o tombo desse problema".
O pesquisador Aderson Farias do Nascimento, coordenador do Laboratório Sismológico da UFRN, destaca: "Ele serviu de amálgama e de comunicador para transmitir confiança no trabalho que estava sendo feito pela ciência". Conhecido como "Apóstolo do Mato Grande", Monsenhor Lucena permaneceu 48 anos à frente da Paróquia Nossa Senhora Mãe dos Homens.
João Câmara hoje: polo eólico
Quarenta anos depois, o município tem 34,8 mil habitantes (IBGE 2025). Com 29 parques eólicos e 327 aerogeradores, responde por quase 10% da produção potiguar de energia limpa. Em 2022, um projeto de lei no Senado propôs batizar João Câmara como "Capital Nacional dos Ventos".
"Você olha para hoje e vê a coisa em ascensão. É um cenário completamente diferente do que tínhamos no passado, quando todos achavam que João Câmara ia sumir do mapa", afirma o ex-prefeito Ribamar.
Preparação para novos abalos
A Falha de Samambaia continua ativa, com pequenos abalos periódicos. A ciência ainda não prevê terremotos. O ex-prefeito José Ribamar Leite alerta: "A cidade não está preparada para um novo abalo. A população não tem barracas prontas, a rede elétrica precisa estar estruturada. João Câmara não é uma cidade comum. É preciso estar sempre prevenido". A Prefeitura de João Câmara não respondeu aos questionamentos do g1 sobre planos de contingência.



