O ciclo de investimentos em inteligência artificial (IA) se aproxima de US$ 1 trilhão por ano, enquanto as receitas ligadas direta ou indiretamente à tecnologia somam cerca de US$ 120 bilhões anualizados, segundo estimativas da Kinea Investimentos. Em relatório, a gestora questiona se as empresas do setor conseguirão monetizar esses aportes ou se consumirão caixa sem gerar retorno aos acionistas.
Paralelo com 'Devoradores de Estrelas'
No documento, a Kinea faz uma analogia com o filme 'Devoradores de Estrelas', em que um microrganismo consome a energia solar. Para a gestora, a IA está consumindo o caixa das empresas de tecnologia e dos investidores.
O ciclo de investimentos nasceu da combinação do uso massivo de GPUs (chips para cálculos complexos) e da arquitetura Transformer, apresentada em artigo do Google em 2017. Essas inovações criaram uma espiral de gastos: modelos maiores exigem mais chips, mais data centers, mais energia e capital.
Números da espiral de gastos
Apenas as quatro maiores fornecedoras de computação em nuvem (Amazon, Alphabet, Microsoft e Meta) devem investir cerca de US$ 900 bilhões em 2027. Somando Oracle e novos entrantes, o ciclo ultrapassa US$ 1 trilhão, sendo uma das maiores ondas de investimento corporativo da história moderna. Desde setembro de 2025, as previsões para 2026 subiram em quase US$ 300 bilhões.
Para a Kinea, a dúvida não é se a IA gerará valor – programação já mostra ganhos de produtividade, e o efeito aparece em finanças, advocacia e atendimento –, mas em qual camada da cadeia o valor será capturado.
Camada dos modelos: risco de comoditização
Na camada dos modelos de IA, o risco é de comoditização. As trocas de liderança são frequentes, e modelos de código aberto chineses (DeepSeek, Qwen) encurtaram a distância para os líderes, derrubando o preço médio cobrado. Empresas fora da liderança podem crescer em receita, mas terão dificuldade de gerar retorno adequado.
A Kinea vê exceção na Anthropic, dona do Claude, cuja receita saltou de US$ 9 bilhões (fim de 2025) para cerca de US$ 70 bilhões, segundo a YipitData. “A mensagem do mercado é clara: é Anthropic ou nada”, afirma a gestora.
Hyperscalers: concorrência e pressão no caixa
Nas hyperscalers (Amazon, Microsoft, Google), o oligopólio rentável da computação em nuvem ganhou concorrentes como Oracle, CoreWeave, Nebius e xAI. A oferta pode crescer mais rápido que a demanda. Além disso, o investimento vem antes da receita: estimativas apontam queda relevante na geração de caixa das big techs em 2026, com a Amazon possivelmente em terreno negativo.
A CoreWeave ilustra o problema: receita cresceu 170% em 2025, para US$ 5,1 bilhões, mas prejuízo líquido de US$ 1,2 bilhão. “Se os modelos são a camada mais sujeita à comoditização tecnológica, os hyperscalers podem ser a mais exposta à comoditização do capital”, diz a Kinea.
Infraestrutura: o elo mais forte
Na infraestrutura física (chips, memória, energia, refrigeração), a Kinea enxerga o elo mais forte, pois os fornecedores recebem o dinheiro hoje, enquanto modelos e nuvem precisam provar monetização futura. A demanda por computação cresceu mais rápido que a oferta, gerando alta de preços em gargalos. A memória é exemplo, com expansão de margens e melhora de retorno. “Vendem para a corrida, capturam os gargalos e se beneficiam da inflação de capacidade”, escreve a gestora, que reconhece risco de reversão se a oferta chegar rápido ou a monetização decepcionar.
Quem será devorado?
“Cedo ou tarde, ou a receita acelera, ou aparecerão perdedores em alguma camada da cadeia”, afirma a Kinea, que prefere posições nos gargalos que já capturam caixa a apostas em modelos e provedores de nuvem. “A pergunta final não é se a IA será importante. Ela será. A pergunta é: quem vai capturar o valor e quem será devorado no caminho?”, conclui o documento.



