Circula nas redes sociais uma imagem que mostra uma faixa supostamente colocada pelo tráfico com ameaças a quem elogiar a decisão do governo Donald Trump de classificar as facções brasileiras Comando Vermelho (CV) e Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas. A publicação é falsa.
Origem da imagem manipulada
As publicações viralizaram no X a partir de 1º de julho. Elas exibem o que seria uma imagem extraída de um telejornal exibido pela TV Gazeta, afiliada da TV Globo no Espírito Santo. A cena mostra uma faixa pendurada entre dois postes com os seguintes dizeres: "Proibido elogiar a decisão do Trump. Sujeito a cacete. Não vamos aceitar essas coisas na comunidade, etc." Na parte inferior do quadro, há um enunciado falso que simula uma descrição jornalística: "RECADO DO TRÁFICO. Faixas foram colocadas com ameaças a apoiadores da decisão americana que classificou o PCC como organização terrorista".
A verdadeira mensagem
Esse material adultera um conteúdo real que não tem nada a ver com o presidente dos Estados Unidos. A mensagem original dizia: "Proibido tirar de giro e chamar no grau. Sujeito a cacete", como relatou reportagem publicada pelo g1 ES em 3 de janeiro de 2022, quando o segundo mandato de Trump sequer havia se iniciado. A descrição real informou: "Faixas foram colocadas com ameaças a motociclistas no bairro São Pedro, em Vitória". A expressão "tirar de giro" refere-se ao ato de segurar a embreagem da moto para causar um ruído alto. "Chamar no grau" é sinônimo de empinar.
Exemplos de legendas falsas
Veja dois exemplos de legendas que acompanham o conteúdo manipulado:
- "Em território ocupado pelo tráfico quem falar de Trump pode ser torturado. É essa a soberania que Lula, esquerda, mídia e até bancos estão defendendo. Isso precisa acabar! Que Flávio seja eleito e, com Trump, elimine toda essa corja. Queremos a soberania da lei e da ordem!"
- "Os meninos do Lula estão proibindo os moradores de elogiarem a decisão de @POTUS e @SecRubio".
Na seção de comentários de um dos posts, há mensagens de usuários que acreditaram na autenticidade da mensagem. Um deles disse: "Terrorista achando ruim ser chamado de terrorista e agindo como terrorista em retaliação".
Contexto da decisão americana
As publicações viralizaram dias depois de o secretário do Departamento de Estado dos EUA, Marco Rubio, ter anunciado que as facções brasileiras seriam classificadas como "Organizações Terroristas Estrangeiras" e "Terroristas Globais Especialmente Designados". Em 5 de junho, as designações passaram a vigorar formalmente. A medida abre caminho para a atuação de órgãos de contraterrorismo americanos, incluindo, segundo analistas, a aplicação de sanções contra autoridades e instituições financeiras brasileiras.
Evidências de manipulação
O Fato ou Fake submeteu a versão adulterada da imagem ao Gemini, assistente de inteligência artificial (IA) do Google, que apontou as seguintes evidências visuais de manipulação:
- Letras "retas demais" em uma faixa torta: A faixa real está pendurada na rua, tem ondas e dobras por causa do vento. Mas, no trecho "Proibido elogiar a decisão do Trump", as letras vermelhas e brancas aparecem perfeitamente retas e planas, sem acompanhar os amassados do tecido ("o que mostra que foram 'coladas' por cima no computador ou celular").
- Borrões estranhos em volta do texto: Na imagem original, a imagem não fica quadriculada se alguém dá zoom na foto. Já na versão adulterada, esse ponto fica muito mais borrado, cheio de "fantasmas" e "sujeira visual" ao redor das letras manipuladas.
- Letras falsas são muito "duras": O texto em preto ("Sujeito a cacete"), que estava na faixa de verdade, sofre a ação do sol e da iluminação do ambiente. Já as letras na frase "Proibido elogiar a decisão de Trump" surgem como se tivessem sido recortadas com uma tesoura digital.
- Erros de padrão na "tarja" que imita telejornal: As palavras surgem espremidas, desalinhadas e fora do padrão no trecho "Faixas foram colocadas com ameaças a apoiadores da decisão americana que classificou o PCC como organização terrorista".
A comparação entre a imagem autêntica e a manipulada deixa clara a adulteração. A faixa original, exibida em reportagem de 2022, trazia um recado para motociclistas, não para apoiadores de Trump.



