O mundo está diante de uma nova Guerra Fria, marcada pela rivalidade estratégica entre Estados Unidos e China, que se manifesta em corrida armamentista, disputa tecnológica e formação de blocos econômicos e militares. A avaliação é de especialistas que participaram do evento Expert XP, realizado nesta quarta-feira, em São Paulo.
O que está em jogo
Diferentemente do confronto bipolar do século XX, a nova disputa não é ideológica, mas sim por supremacia tecnológica e econômica. Os Estados Unidos buscam conter o avanço chinês em áreas como inteligência artificial, semicondutores e energia limpa, enquanto a China procura expandir sua influência na Ásia, África e América Latina.
Para o professor de relações internacionais da USP, Carlos Eduardo Lins da Silva, a nova Guerra Fria é mais complexa porque envolve cadeias globais de produção e comércio. "Não é uma simples divisão entre dois blocos. Há muitos países que tentam manter relações com ambos os lados, como o Brasil", afirmou.
Impactos para o Brasil
O Brasil se encontra em posição delicada, pois é um dos maiores parceiros comerciais da China, mas também mantém laços históricos com os Estados Unidos. A especialista em geopolítica da FGV, Matilde Sousa, destacou que o país precisa de uma estratégia clara para não ficar refém da disputa.
"O Brasil pode se beneficiar se atuar como ponte entre os dois blocos, mas isso exige uma política externa ativa e coerente", disse Sousa. Ela citou que as exportações brasileiras para a China somaram US$ 89 bilhões em 2025, enquanto para os EUA foram US$ 37 bilhões.
Corrida armamentista e tecnologia
Os gastos militares mundiais atingiram US$ 2,4 trilhões em 2025, o maior nível desde a Segunda Guerra Mundial, segundo o Instituto Internacional de Pesquisa da Paz de Estocolmo (SIPRI). Os EUA respondem por 40% desse total, e a China, por 15%.
Na área tecnológica, a disputa se concentra em chips avançados e na corrida pela hegemonia em inteligência artificial. Os EUA impuseram restrições à exportação de semicondutores para a China, que respondeu com investimentos maciços em pesquisa e desenvolvimento.
Blocos e alianças
A nova ordem mundial está levando à formação de blocos regionais. O Indo-Pacífico é o principal palco da disputa, com alianças como AUKUS e Quad, lideradas pelos EUA, enquanto a China fortalece a Organização para Cooperação de Xangai e a Nova Rota da Seda.
Na América Latina, a China já é o principal parceiro comercial de vários países, incluindo Brasil, Chile e Peru. Isso preocupa Washington, que tenta retomar influência na região com novas iniciativas econômicas e diplomáticas.
Riscos de conflito
Embora a maioria dos analistas descarte uma guerra direta entre EUA e China, o risco de conflitos localizados é real. A tensão em Taiwan, no Mar do Sul da China e na península coreana pode escalar rapidamente.
O tenente-brigadeiro reformado da Força Aérea Brasileira, Paulo Roberto de Oliveira, alertou que "a nova Guerra Fria é mais perigosa porque há menos canais de comunicação entre as potências". Ele defendeu que o Brasil fortaleça sua diplomacia de defesa para evitar ser arrastado para um confronto.
O papel da Europa
A Europa tenta se posicionar como terceiro polo, mas enfrenta divisões internas. A Alemanha e a França buscam autonomia estratégica, enquanto os países do Leste Europeu são mais alinhados aos EUA.
A guerra na Ucrânia acelerou esse processo, com a Otan se expandindo e a União Europeia aumentando seus gastos militares. Isso criou um novo equilíbrio de poder na região, com a Rússia cada vez mais dependente da China.
Conclusão
A nova Guerra Fria é uma realidade que exige atenção redobrada de todos os países, especialmente do Brasil. A falta de uma posição clara pode custar caro em um mundo cada vez mais polarizado. Os especialistas recomendam que o país invista em tecnologia, diversifique suas parcerias e fortaleça sua diplomacia.



