IA domina pré-campanha eleitoral com vídeos e ataques sintéticos
IA domina pré-campanha com vídeos e ataques sintéticos

A inteligência artificial (IA) já domina a pré-campanha eleitoral de 2026, com vídeos, jingles e sátiras que colocam pré-candidatos em situações fictícias. Levantamento do Observatório IA nas Eleições, divulgado em março, aponta que a média diária de conteúdos políticos gerados por IA cresceu 50% em relação ao período eleitoral de 2024. Desses, 45% foram classificados como desinformativos e 73% não informavam o uso da tecnologia.

Uso intenso entre presidenciáveis

Entre os presidenciáveis, Flávio Bolsonaro (PL) é o que mais utiliza a tecnologia. Ele lançou um jingle feito com IA, publicou um funk sobre o Pix no qual aparece vestido como o pai, Jair Bolsonaro, e um vídeo em que é retratado como piloto de caça. O PL também usou IA para divulgar um projeto que aumenta a pena para furto de celular, com o senador capturando um ladrão. Em todos os casos, o uso de IA foi informado.

Romeu Zema (Novo) publicou um clipe em que aparece como cantor em uma música sobre Minas Gerais, além de vídeos com fantoches semelhantes a Lula e ministros do STF, inicialmente sem aviso de IA. Ronaldo Caiado (União Brasil) usou imagens sintéticas em peças sobre segurança pública e também apareceu como cantor e violonista em um vídeo feito com IA. Renan Santos (Missão) publicou um vídeo criado com IA a partir de uma fotografia de Daniel Vorcaro para criticar políticos.

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Lula (PT), que em maio defendeu a proibição da IA nas eleições, teve aliados publicando vídeos com cenas sintéticas reconstruindo sua trajetória, e seu perfil oficial compartilhou um vídeo com música escrita por uma apoiadora e voz produzida com IA.

Regras para a pré-campanha

As regras do TSE para o uso de IA já valem na pré-campanha. Na segunda-feira (3), TSE e AGU firmaram acordo de cooperação e disponibilizaram uma cartilha de boas práticas. A advogada eleitoralista Emma Roberta Bueno explica que há simetria entre pré-campanha e campanha: "Tudo aquilo que não pode ser feito na campanha também não pode ser feito na pré-campanha; e o que precisa ser feito na campanha também precisa ser feito na pré-campanha".

Pela resolução, o responsável por conteúdo sintético deve informar, de forma explícita, destacada e acessível, que a peça foi fabricada ou manipulada e qual tecnologia foi utilizada. Em áudios, o aviso deve aparecer no início. Imagens estáticas devem apresentar marca-d'água e audiodescrição. Vídeos devem reunir as duas formas de identificação. Deepfakes são proibidas quando usadas para favorecer ou prejudicar uma candidatura, mesmo com autorização.

Stefani Juliana Vogel, advogada eleitoral e membro da Abradep, destaca que a resolução de 2026 trouxe mudanças relevantes, como a proibição de conteúdo sintético novo nas 72 horas anteriores e 24 horas posteriores ao pleito, a inclusão expressa da republicação gratuita, a possibilidade de inversão do ônus da prova e novos deveres para plataformas.

Casos polêmicos e responsabilização

Na convenção nacional do PL, foi exibido um vídeo com IA simulando a imagem e a voz de Jair Bolsonaro apoiando a candidatura do filho. O ministro Alexandre de Moraes, do STF, deu 48 horas para a defesa de Bolsonaro informar se autorizou o uso de sua imagem. A defesa negou a autorização, e Moraes afirmou que Flávio e o PL podem ser responsabilizados por possível uso irregular de deepfake.

O cientista político Alexandre Basílio Coura, membro da Abradep, explica que jingles e animações não são automaticamente proibidos, mas criar artificialmente a voz de um candidato para fazê-lo dizer algo que nunca disse apresenta risco de enquadramento como deepfake. Joscimar Silva, professor da UnB, ressalta que a IA permite produzir conteúdo segmentado com baixo custo, mas pode criar "bolhas de realidade" que afastam o eleitor da verdade.

Carla Rodrigues, coordenadora de Plataformas e Mercados Digitais da Data Privacy Brasil, afirma que o humor e a sátira podem ajudar mensagens falsas a circular: "A pessoa pode saber que aquilo é uma brincadeira e que o vídeo não é verdadeiro, mas aceita a mensagem porque acha engraçada ou interessante".

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Conteúdo de apoiadores e eleitores

A produção de conteúdo com IA não parte apenas dos políticos. Uma conta anônima no TikTok manipulou a imagem e a voz do jogador Gabriel Martinelli para pedir voto em Lula. Contas anônimas também divulgaram imagens geradas por IA para atacar o presidente. Flávio também foi alvo de conteúdo sintético falso.

Eleitores podem produzir conteúdo político espontaneamente, mas não podem contratar impulsionamento ou receber remuneração. Alexandre explica que a coordenação de apoiadores não é irregular por si só, mas pode haver responsabilização quando há pagamento ou estrutura profissional oculta. Emma destaca a dificuldade de fiscalizar o grande volume de conteúdos, mas afirma que a Justiça Eleitoral tem ficado cada vez mais atenta.

Casos anteriores mostram riscos. Em 2024, Tabata Amaral publicou um vídeo com o rosto de Ricardo Nunes sobre o corpo de Ryan Gosling, considerado crítica política. Evandro Leitão foi multado em R$ 15 mil por manipular imagens de celebridades. Em Buenos Aires, deepfakes circularam horas antes da votação, mostrando a dificuldade de contenção.

Proibição de 72 horas

Para 2026, o TSE proibiu a publicação, republicação e impulsionamento de novos conteúdos sintéticos nas 72 horas anteriores e 24 horas posteriores ao pleito, mesmo com sinalização. A restrição alcança candidatos, partidos, apoiadores e eleitores. As plataformas devem manter canais de denúncia e remover conteúdos falsos.

"A população não está imune a sofrer uma ação e até uma sanção", alerta Emma. Em casos graves, conteúdos de apoiadores podem gerar investigação sobre coordenação da campanha beneficiada, podendo levar à cassação do mandato. No entanto, Alexandre pondera que a responsabilidade do beneficiário não é automática e depende de provas.