O presidente americano Donald Trump anunciou um acordo “histórico” entre seu Conselho da Paz e o Hamas, que prevê, em fases, o desarmamento do grupo terrorista, a retirada de Israel de Gaza e a transição para uma administração palestina apoiada por uma força internacional. A iniciativa tenta transformar o cessar-fogo em um caminho para o fim da guerra. Mas o termo que sustenta esse arranjo – “desarmamento” – abriga uma ambiguidade.
O que significa desarmar o Hamas?
Desarmar pode significar recolher arsenais ou perder poder. As duas coisas não se confundem e dificilmente coincidirão por si sós. Fala-se em armazenamento supervisionado de armas e em fases condicionadas por verificação externa. Evita-se a linguagem de entrega definitiva ou eliminação. O processo depende de reciprocidade entre desarmamento do Hamas e retirada israelense, o que o transforma numa negociação contínua.
O ponto cego está no objeto que se pretende desarmar. O poder do Hamas nunca dependeu do volume ou do tipo de armamento. As chamadas “armas pesadas” já não definem sua capacidade de controle. Ela se apoia em coerção e redes organizacionais, sustentadas por uma infraestrutura difusa – como túneis – que preservam sua influência mesmo após concessões formais. Movimentos armados como o Hezbollah já demonstraram capacidade de ceder visibilidade institucional e manter poder nos bastidores.
Quem realmente controla o terreno?
Essa dissociação aparece na distância entre quem negocia e quem controla o terreno. A autoridade real segue nas mãos dos combatentes em Gaza, não dos representantes que discutem termos no exterior. Sem um deslocamento desse centro de poder, qualquer compromisso corre o risco de se dissolver no contato com a realidade.
A força internacional e a nova polícia palestina levarão meses para se tornar operacionais. Até lá, o controle cotidiano permanece inalterado. Esse descompasso cria um incentivo: ajustar-se ao processo, preservar capacidades essenciais e, se necessário, preparar alternativas para o caso de as fases finais não se concretizarem. O risco não é de descumprimento aberto, mas de adaptação silenciosa.
O papel da identidade política do Hamas
O desarmamento pressupõe que as armas sejam instrumentos contingentes. No caso do Hamas, elas são parte de uma identidade política construída em torno da “resistência” armada. Sem uma revisão dessa base – e de sua expressão ideológica e programática –, a entrega parcial de meios tende a produzir apenas uma suspensão do conflito, não sua transformação. A experiência da Organização para a Libertação da Palestina nos anos 1990 mostra que a mudança decisiva não foi apenas material, mas política.
Há mérito em organizar um roteiro e mobilizar atores regionais. Mas a mesma urgência que viabiliza compromissos também favorece zonas cinzentas. Marcos diplomáticos podem anteceder mudanças reais – e, por vezes, substituí-las.
Os riscos do acordo
A cautela israelense reflete essa leitura. A alternativa exclusivamente militar mostrou limites, mas isso não elimina o problema de fundo: sem uma autoridade palestina capaz de impor regras e sustentar legitimidade, a segurança permanece contingente. O risco, portanto, não está apenas no fracasso do acordo. Está em seu sucesso aparente.



