Tarifas de Trump afetam indústrias brasileiras; líderes contam impactos
Tarifas de Trump: indústrias brasileiras sofrem impactos

Líderes empresariais de negócios que vendem seus produtos para os Estados Unidos estão preparados para a nova rodada de tarifas sobre exportações brasileiras imposta pelo governo de Donald Trump a partir de hoje. Embora haja uma longa lista de exceções, uma fatia relevante de setores industriais ficou fora. Entre as empresas atingidas pela sobretaxa, o momento obriga uma revisão da rotina e dos planos, além de um ajuste na estrutura de custos e a busca de novos mercados, conforme relatos de três líderes de companhias afetadas em depoimento ao GLOBO.

Indústrias de madeira e equipamentos são as mais atingidas

Indústrias de madeira e de produtos para fabricação de equipamentos estão menos esperançosas de que a nova taxação de 25% seja revertida, como ocorreu no ano passado com o tarifaço de 50% que também havia afetado esses setores. Eles veem menos espaço para uma negociação desta vez e temem que os fornecedores brasileiros sejam descartados mesmo oferecendo descontos.

O direcionamento da produção para outros mercados é mais difícil para Daniel Woiski, CEO da Solida Brasil, especializada em produtos de madeira. No ano passado, a empresa já enviou o material de acabamento que produz para o Oriente Médio e a Ásia, mas são itens de menor valor agregado do que os exportados aos EUA, e o faturamento caiu.

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Solida Brasil: 80% da produção ia para os EUA, agora caiu para 50%

"Cerca de 80% da nossa produção vai para os EUA. Isso caiu a 50% com as tarifas do ano passado. O restante redirecionamos para outros mercados, como Oriente Médio e Ásia. Ainda assim, o faturamento caiu 30%, porque só encontramos mercado para a madeira serrada, que tem pouco valor agregado comparado ao que fazemos para os americanos", afirma Daniel Woiski. "Teremos que, mais uma vez, buscar novos mercados, mas não será fácil. A Europa, por exemplo, usa muito menos os materiais de acabamento que produzimos, como molduras de janelas e portas. Existe mercado, mas não em volumes significativos e, obviamente, todos os concorrentes vão olhar para esses locais."

A empresa tem 650 funcionários, mas teve que desligar 200 desde o tarifaço passado. "Há risco de novas demissões, mas por enquanto não prevejo novos cortes. Também tivemos que segurar investimentos, mantendo apenas manutenções. A longo prazo, tudo está congelado, aguardando que voltemos a pisar em terra firme. Por enquanto, estamos em areia movediça", completa Woiski.

Temasa: medo de que o cliente desacredite do Brasil

Na mesma situação está a Temasa, de Santa Catarina, que também direciona a maior parte da produção para os Estados Unidos. "No ano passado, o tarifaço, que durou sete meses, reduziu cerca de 12% de nosso faturamento. Para este ano, esperamos uma queda da mesma magnitude, mas nossa preocupação é maior. Em 2025, os clientes não acreditavam que a tarifa de 50% permaneceria. Agora, a preocupação dos compradores é maior, já que as negociações não avançam", relata Leonir Tesser, diretor-geral da Temasa.

"O medo é que o cliente desacredite do Brasil. Vamos ter que dar desconto, reduzindo nossa margem, para que nossos produtos não saiam das prateleiras nos EUA. Esse é o objetivo: que os clientes não busquem produtos similares em outros mercados. Mas sabemos que essa política de descontos não é sustentável", afirma Tesser. A Temasa, instalada em Caçador, Santa Catarina, há 36 anos, fabrica móveis no conceito 'monte você mesmo', como pequenos armários, cômodas e racks para TVs. Pelo menos 50% da produção vai para os EUA; a outra metade vai para a Europa.

"Não só a Temasa é dependente do mercado americano, mas também boa parte das empresas de Caçador. Fabricantes de móveis com até 600 funcionários estão fechando. Temos 700 funcionários, não demitimos. Mas, desde o ano passado, saíram entre 15% e 20% dos empregados, e nenhuma vaga foi reposta", completa Tesser.

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Flexaseal: plano de fornecer para matriz nos EUA foi por água abaixo

Mesmo com os descontos oferecidos nas mercadorias, é uma situação difícil de manter por longo tempo. Além disso, há o risco de, quando a taxação atingir outros países, como promete o governo Trump, empresas que também fornecem para os americanos buscarem outros mercados, aumentando a concorrência. Ainda assim, Helio Guida, sócio da subsidiária brasileira da Flexaseal, indústria de selos mecânicos desenvolvida para atender o mercado americano, diz que não vai reduzir investimento: "Estamos dobrando a área da fábrica de olho no longo prazo, o Trump não ficará no poder para sempre."

"Em janeiro de 2025, os sócios da matriz nos EUA vieram aqui, e identificamos que as unidades da sede compravam US$ 3 milhões em peças de um fornecedor chinês. Chegamos à conclusão de que era possível transferir os pedidos para o Brasil, comprando de nós mesmos. Então, estruturamos a fábrica do Brasil, no Bom Retiro, na capital paulista. Para isso, compramos maquinário, contratamos 30 pessoas", detalha Guida.

"Em abril de 2025, tínhamos toneladas de pedidos para o Brasil, até que, em julho, veio o tarifaço. Aí, não recebemos mais nenhum pedido da matriz, que teve de voltar a procurar os fornecedores da China, porém, tínhamos uma carteira enorme para fornecer e mantivemos os pedidos. A empresa decidiu apertar as margens, conforme a tarifa vigente em cada momento. Vamos acabar de entregar, em agosto, os pedidos de 2025. Para suprir a perda de pedidos dos EUA, estamos buscando mercados na América do Sul. Fabricamos selos mecânicos, que podem ser destinados a qualquer lugar, porque são padronizados. Mesmo assim, o tarifaço jogou pelo ralo o plano de fornecer os componentes daqui para a matriz nos EUA. Era estratégico", conclui Guida.