O Banco do Japão (BoJ) interveio no mercado de câmbio para sustentar o iene, mas analistas avaliam que a medida serve apenas para ganhar tempo até que o país adote as reformas necessárias para enfrentar a pressão sobre a moeda. A intervenção, confirmada na última quinta-feira, ocorreu após o iene atingir o menor nível em mais de duas décadas frente ao dólar, refletindo o diferencial de juros entre o Japão e os Estados Unidos.
Na visão de especialistas ouvidos pelo Valor, a atuação do BoJ não resolve o problema estrutural da moeda japonesa, que segue pressionada pela política monetária ultraexpansionista do país, enquanto o Federal Reserve (Fed) eleva os juros para conter a inflação. "A intervenção é um paliativo. O Japão precisa de um ajuste mais profundo, como a revisão da meta de inflação e a normalização da política monetária", afirma o economista-chefe de uma gestora local.
O que está por trás da fraqueza do iene
A moeda japonesa acumula desvalorização de cerca de 18% em 2026, sendo uma das piores performances entre as principais divisas do mundo. O movimento é impulsionado pela diferença de juros: enquanto o Fed elevou a taxa para a faixa de 5,25% a 5,50% ao ano, o BoJ mantém a taxa básica em -0,10%, além de manter o controle da curva de juros de 10 anos em torno de zero.
Essa combinação torna o iene pouco atrativo para investidores, que preferem aplicar em dólar, onde a rentabilidade é maior. A pressão sobre a moeda é agravada pelo aumento dos preços das commodities, que elevam a conta de importação do Japão, e pela desaceleração da economia global, que reduz a demanda por exportações japonesas.
Intervenção: ganhar tempo ou mudar o jogo?
Na prática, a intervenção do BoJ, que vendeu dólares e comprou ienes, busca conter a volatilidade e evitar uma queda desordenada da moeda. No entanto, analistas alertam que o efeito tende a ser temporário, pois os fundamentos continuam desfavoráveis. "A intervenção pode dar um alívio de curto prazo, mas sem mudanças na política monetária, o iene voltará a se depreciar", diz um estrategista de câmbio de um banco internacional.
O governo japonês também está sob pressão para tomar medidas fiscais que aliviem o impacto da alta dos preços sobre as famílias e as empresas. O primeiro-ministro, Fumio Kishida, anunciou um pacote de estímulo de 20 trilhões de ienes (cerca de US$ 135 bilhões), mas especialistas questionam se isso será suficiente para reverter a tendência de desvalorização.
Riscos e próximos passos
Os analistas apontam que, se o BoJ continuar intervindo sem um compromisso claro de normalizar a política monetária, o Japão corre o risco de esgotar suas reservas internacionais, que somam cerca de US$ 1,2 trilhão. Além disso, a intervenção pode gerar atritos com os Estados Unidos, que historicamente se opõem à manipulação cambial.
Para os próximos meses, o mercado acompanha de perto as reuniões do BoJ e os dados de inflação no Japão, que devem influenciar a decisão sobre uma eventual mudança na política de juros. "O BoJ pode surpreender com um ajuste no controle da curva de juros, mas isso dependerá da evolução dos salários e da inflação de serviços", avalia um economista sênior de um banco europeu.
Enquanto isso, o iene deve permanecer volátil, com os investidores atentos a novas intervenções e a qualquer sinal de mudança na postura do Banco do Japão. A recomendação dos analistas é que o país aproveite o tempo ganho com a intervenção para implementar as medidas necessárias para fortalecer a economia e a moeda no longo prazo.



