Inflação nos EUA atinge maior patamar em 40 anos em maio
Inflação nos EUA atinge maior patamar em 40 anos

A inflação nos Estados Unidos atingiu em maio o maior patamar em quatro décadas, pressionada pela alta da gasolina e dos alimentos. O índice de preços ao consumidor (CPI) subiu 8,6% na comparação anual, o maior avanço desde dezembro de 1981, segundo dados do Departamento do Trabalho divulgados nesta sexta-feira (10). O resultado veio acima das expectativas do mercado, que projetava alta de 8,3%, e acendeu o alerta para a continuidade do aperto monetário pelo Federal Reserve.

Gasolina a US$ 4,095 por galão

O preço médio da gasolina nos EUA atingiu US$ 4,095 por galão na segunda-feira (6), cerca de 30% acima do registrado no mesmo período do ano passado, de acordo com dados da American Automobile Association (AAA). O combustível é um dos principais itens que pressionam a inflação, com impacto direto no orçamento das famílias e nos custos de transporte e logística.

O presidente Donald Trump voltou a pressionar as petroleiras americanas a reduzirem os preços. Em publicação na Truth Social, ele reclamou dos lucros das empresas do setor e afirmou que os consumidores não deveriam arcar com preços tão elevados. "Não gosto disso. Eu deveria ser a última pessoa a dizer isso, porque sou um grande defensor da livre iniciativa, ninguém mais do que eu. Estão surpresos por eu dizer isso? Vou dizer em alto e bom som. Não estou satisfeito", disse Trump a jornalistas na Casa Branca.

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Lucros bilionários das petroleiras

A alta do petróleo, impulsionada pela crise no Estreito de Ormuz, por onde passa 20% da produção mundial, fez disparar os lucros das petroleiras. Juntas, ExxonMobil e Chevron lucraram US$ 29 bilhões (R$ 147 bilhões) no segundo trimestre, mais de três vezes o valor registrado no mesmo período do ano anterior. Trump criticou publicamente o CEO da Chevron, Mike Wirth, por não reconhecer o papel de sua administração no fortalecimento da indústria do petróleo, e estendeu as críticas a outras gigantes como a ExxonMobil.

O barril de Brent, principal referência internacional, passou de cerca de US$ 70 para US$ 126 durante a escalada do conflito no Oriente Médio, antes de recuar para perto de US$ 80 nesta terça-feira (4), com sinais de avanço nas negociações entre EUA e Irã. No entanto, segundo Nivaldo de Castro, coordenador do Grupo de Estudos do Setor Elétrico (Gesel) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), os preços não recuam imediatamente. "As refinarias trabalham com estoques e contratos de curto, médio e longo prazo. Por isso, uma eventual queda do petróleo leva tempo para chegar ao consumidor."

Impacto no consumidor americano

Em maio, consumidores relataram que passaram a reduzir as viagens de carro, concentrar compromissos em trajetos mais curtos e recorrer com maior frequência ao transporte público para economizar combustível. Na época, o preço médio do galão de gasolina comum era ainda mais alto: US$ 4,52 (R$ 22,64). Uma pesquisa da Ipsos, divulgada pelo Washington Post e pela ABC News, mostrou que 44% dos americanos diminuíram o número de viagens de carro em razão da alta da gasolina.

Para especialistas ouvidos pelo g1, a pressão de Trump sobre as petroleiras tem efeito político, mas capacidade limitada de alterar os preços pagos pelos consumidores. Embora os EUA sejam hoje o maior produtor mundial de petróleo, a gasolina vendida no país continua fortemente influenciada pelas cotações internacionais da commodity, pela estrutura do parque de refino e pelos custos de distribuição.

Contradição no discurso de Trump?

Ticiana Alvares, diretora técnica do Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (Ineep), aponta um contraste entre a cobrança de Trump às petroleiras e a política externa adotada pelos EUA. "O preço do petróleo é formado em um mercado global e incorpora expectativas. Quando aumenta o risco de interrupção da oferta, o barril sobe rapidamente", explica. Ela lembra que os EUA ampliaram sua participação nas exportações de petróleo e gás natural nos últimos anos, o que beneficia parte do setor energético quando as cotações internacionais sobem. "A valorização do petróleo aumenta a receita de parte dessas empresas, ao mesmo tempo em que encarece a gasolina para o consumidor americano."

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Por que a gasolina continua cara nos EUA?

Pode parecer contraditório que o maior produtor mundial de petróleo tenha gasolina tão cara, mas especialistas explicam que parte das refinarias dos EUA foi projetada para processar tipos de petróleo mais pesados do que o produzido atualmente em grande escala no país. Por isso, empresas americanas exportam parte do petróleo extraído no país e continuam importando outros tipos de petróleo cru para abastecer suas refinarias, com compras que acompanham as cotações internacionais.

Segundo Castro, da UFRJ, essa característica torna o mercado americano mais exposto às oscilações globais. "Os Estados Unidos exportam parte do petróleo que produzem e importam outro tipo de petróleo para abastecer suas refinarias. Isso faz com que os preços internos acompanhem muito mais de perto as oscilações do mercado internacional." Ele acrescenta que a cadeia de combustíveis nos EUA é formada por diversas empresas privadas responsáveis pela produção, refino, distribuição e revenda, o que reduz a capacidade de coordenação do governo sobre todo o setor.

Efeitos diferentes no Brasil

Assim como os EUA, o Brasil também acompanha as oscilações do mercado internacional de petróleo, mas a diferença está na forma como a cadeia de combustíveis é organizada. No Brasil, a Petrobras ainda concentra boa parte da produção de petróleo e da capacidade de refino, o que garante maior integração entre essas etapas. Segundo Castro, essa característica reduz parte da exposição imediata às oscilações internacionais, embora os preços domésticos também sejam influenciados pelo mercado externo.

"A integração entre produção e refino permite amortecer parte dos impactos das oscilações internacionais. Isso não significa que o Brasil fique imune às altas do petróleo, mas o repasse pode ocorrer de forma diferente do observado nos Estados Unidos", conclui o especialista.