A participação da Geração Z no mercado de consórcios tem crescido de forma consistente nos últimos anos, conforme indicam pesquisas do setor e dados de administradoras. Consumidores entre 18 e 29 anos passaram a recorrer com mais frequência à modalidade para planejar compras de alto valor, revelando uma mudança estrutural no perfil dos consorciados no Brasil.
Pesquisa aponta que 46% dos consorciados são jovens
Levantamento da Kantar Brasil encomendado pela Associação Brasileira de Administradoras de Consórcios (ABAC) mostra que 46% dos consumidores de consórcio pertencem a essa faixa etária. Os números de algumas administradoras confirmam a evolução desse perfil. Na Rodobens, por exemplo, a participação de clientes com menos de 30 anos nas novas aquisições saltou de cerca de 2% em 2015 para 15,8% em 2026. No Mycon, esse público representava 25,6% da base entre janeiro e maio de 2025 e chegou a 43,3% no mesmo período deste ano.
“É uma mudança estrutural, não um efeito passageiro”, afirma Sebastião Cirelli, diretor de Consórcios da Rodobens. Segundo ele, os jovens passaram a enxergar o consórcio não apenas como alternativa ao crédito, mas também como uma ferramenta de planejamento financeiro e construção de patrimônio.
Casa e carro ainda lideram, mas projetos de vida ganham espaço
Os imóveis e os veículos continuam entre os principais objetivos dos jovens que aderem ao consórcio. O perfil de contratação, porém, passou a incluir outras metas, acompanhando mudanças no estilo de vida e nas prioridades dessa geração. Na Rodobens, os automóveis concentram cerca de 43% das adesões de clientes com menos de 30 anos, seguidos pelos imóveis (32%) e pelas motocicletas (16%). Os consórcios de serviços respondem por aproximadamente 6% e são usados para financiar projetos como viagens, cursos, intercâmbios e casamentos.
No Mycon, o cenário é semelhante. Mais da metade dos clientes da Geração Z busca consórcios de automóveis, enquanto cerca de um terço procura cartas de crédito para imóveis e outro terço para motocicletas. Daniel Venancio, diretor executivo de Operações da Âncora Consórcios, avalia que o produto passou a acompanhar diferentes momentos da vida financeira dos consumidores mais jovens. “Além dos bens tradicionais, cresce o interesse por modalidades que permitem investir em empreendedorismo, equipamentos, serviços e outros objetivos que contribuem para a construção de patrimônio”, diz.
O que explica o avanço dos jovens nos consórcios?
O crescimento da Geração Z no mercado de consórcios também reflete uma mudança na forma de lidar com o dinheiro. As administradoras ouvidas pela reportagem apontam que esse público pesquisa mais antes de contratar um produto financeiro, compara alternativas e demonstra mais preocupação com o impacto das parcelas no orçamento.
Na avaliação de Daniel Venancio, da Âncora Consórcios, a facilidade para comparar produtos e o cenário econômico também influenciam esse comportamento. Segundo ele, a Geração Z busca alternativas que ofereçam previsibilidade e reduzam a necessidade de recorrer ao financiamento tradicional. Outro fator é a disciplina financeira. “Muitos jovens reconhecem a dificuldade em manter uma poupança de longo prazo. O consórcio transforma esse planejamento em um compromisso recorrente, facilitando a construção gradual de patrimônio”, diz o gestor da Âncora.
Os dados do Mycon reforçam esse perfil. Segundo Bruno Borges, CMO da empresa, 51% dos clientes da Geração Z têm renda de até cinco salários mínimos, o que indica uma preocupação em compatibilizar objetivos de longo prazo com a capacidade de pagamento. “Percebemos uma geração mais preocupada com planejamento e controle das finanças, especialmente em um contexto de juros elevados”, afirma.
A experiência digital também pesa na decisão
Se o consórcio ganhou espaço entre os jovens, a forma de contratar também mudou. Para as administradoras, oferecer uma jornada digital simples passou a ser uma exigência de um público acostumado a resolver praticamente toda a vida financeira pelo celular. Simulações online, assinatura eletrônica, aplicativos para acompanhar a cota e atendimento digital fazem parte da experiência esperada pelos consumidores mais jovens.
Na avaliação de Daniel Venancio, da Âncora Consórcios, a tecnologia simplifica as etapas operacionais, mas não elimina a importância do atendimento especializado. “A tecnologia deve assumir atividades operacionais para que os especialistas possam dedicar mais tempo ao relacionamento consultivo, principalmente em um produto como o consórcio, que envolve planejamento financeiro e decisões de longo prazo”, diz.
Os executivos também convergem na avaliação sobre os próximos anos. A expectativa é que a presença da Geração Z continue crescendo à medida que o consórcio amplia suas possibilidades de uso e acompanha um consumidor que busca combinar planejamento financeiro, flexibilidade e uma experiência cada vez mais digital.



