Visto cassado: pior momento nas relações Brasil-EUA, diz diplomata
Visto cassado: pior momento nas relações Brasil-EUA

A revogação do visto da embaixadora brasileira em Washington, ocorrida na última semana, foi classificada por um diplomata de carreira como "o ponto mais baixo" nas relações entre Brasil e Estados Unidos. O episódio, que pegou o Itamaraty de surpresa, escancara um momento de tensão sem precedentes entre os dois países e levanta dúvidas sobre os próximos passos da política externa brasileira.

O que aconteceu

O governo americano comunicou oficialmente a decisão de cancelar o visto diplomático da embaixadora Maria Luiza Ribeiro Viotti, que representava o Brasil em Washington desde 2023. A medida foi justificada por supostas atividades incompatíveis com o status diplomático, mas não foram apresentadas provas concretas. O Itamaraty, em nota, classificou a ação como "inamistosa" e reservou-se o direito de responder na mesma moeda.

Para o diplomata aposentado Rubens Barbosa, ex-embaixador em Washington, a decisão americana é "sem precedentes" e reflete uma deterioração gradual do diálogo bilateral. "Chegamos a um ponto em que a confiança mútua foi erodida. Isso não se resolve com gestos simbólicos", afirmou Barbosa, em entrevista ao jornal O Globo.

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Impacto nas relações bilaterais

A revogação do visto afeta diretamente a agenda bilateral, que incluía negociações comerciais, cooperação em defesa e discussões sobre mudanças climáticas. Especialistas ouvidos pela reportagem apontam que o episódio pode congelar acordos em andamento e adiar visitas oficiais. O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, convocou o embaixador americano em Brasília para esclarecimentos, mas não há previsão de encontro entre os presidentes.

Dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior mostram que o intercâmbio comercial entre os dois países somou US$ 88 bilhões em 2025, com superávit de US$ 3 bilhões para o Brasil. A incerteza política pode impactar novos investimentos americanos no país, que somaram US$ 12 bilhões no último ano.

Reações no cenário político

No Congresso, a oposição cobrou uma resposta dura do governo, enquanto a base aliada defendeu cautela. O senador Eduardo Girão (Novo-CE) classificou a medida como "um insulto à soberania nacional" e pediu a convocação do chanceler para prestar esclarecimentos. Já o líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA), ponderou que "não se responde a uma crise diplomática com outra crise" e defendeu o diálogo.

Analistas políticos lembram que a relação entre Brasil e EUA passou por altos e baixos históricos, mas nunca houve um episódio como este. "A cassação de visto de um embaixador é algo que se reserva a países com os quais se está à beira de um rompimento", avaliou o cientista político Carlos Melo, do Insper.

Próximos passos

O Itamaraty estuda medidas recíprocas, como a revogação do visto do embaixador americano em Brasília, mas ainda não há decisão oficial. A avaliação interna é de que uma resposta desproporcional pode agravar a crise, mas a omissão pode ser interpretada como fraqueza. O governo brasileiro também acionou a Organização dos Estados Americanos (OEA) para mediar o conflito, mas a entidade ainda não se pronunciou.

Especialistas em direito internacional apontam que a medida americana viola a Convenção de Viena sobre Relações Diplomáticas, que garante a inviolabilidade dos agentes diplomáticos. O Brasil pode recorrer à Corte Internacional de Justiça, mas o processo pode levar anos. Enquanto isso, a comunidade internacional observa com apreensão o desenrolar da crise.

O episódio ocorre em um momento delicado, com as eleições presidenciais americanas se aproximando e o Brasil buscando ampliar sua presença global. A expectativa é de que o tema domine a agenda da próxima reunião do Mercosul e seja levado à Assembleia Geral da ONU em setembro.

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