Festival de fatias de bolo: fenômeno nacional que transforma sobremesa em experiência
Festival de fatias de bolo: fenômeno nacional em alta

Filas quilométricas se formam em feiras de rua e na porta de confeitarias por todo o Brasil. Quem espera sabe exatamente o que quer: uma fatia de bolo alta, decorada, com camadas sobrepostas de massa e recheio farto, com direito à calda extra no momento do serviço. Tudo isso, embalado em uma espécie de marmita descartável. Em poucos minutos, bolos inteiros desaparecem das vitrines e outras tantas fatias continuam desfilando pelas redes sociais por semanas.

O fenômeno dos festivais de fatias

Tudo graças aos chamados “festivais de fatias”. O fenômeno mistura estética pensada para as redes sociais, consumo transformado em espetáculo e a possibilidade de comprar, por um valor relativamente acessível, um bolo digno de festa sem precisar esperar uma ocasião especial.

Para Nani Mantovani, da Escola de Confeitaria Addolcire, onde ministra um curso voltado para festivais de fatias, o pulo do gato está justamente na experiência. “O cliente participa, vê o processo enquanto é feito: vê o corte, a embalagem, a caldinha, alguma decoração extra. É diferente do bolo vir pronto e você servir depois”, declara.

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O espetáculo do exagero

Ah, e tem também uma grande contribuição do exagero, no melhor dos sentidos. “A quantidade de opções dá um ar de fartura e permite que o cliente prove mais sabores. É aquela coisa: tem um monte de bolo para todo mundo.”

Mesclando isso com uma apresentação irresistível, o apelo ao público já é garantido, é justamente essa combinação que desperta a curiosidade do consumidor. “São bolos que não estão nem decorados para serem temáticos, nem neutros. A decoração está lá para ser, simplesmente, irresistível. Eles são visualmente deliciosos, com muita calda, chocolates, frutas vermelhas, bombom, brigadeiro, castanha e pipoca.”

Bolo de festa no dia a dia

Para Soraya Estefani, confeiteira e sócia da Doces Sodrea, com uma barraca na Feira da Glória (RJ), o segredo do sucesso está na possibilidade de se ter um doce especial em um dia comum. “Creio que a maioria das pessoas só comiam bolos assim em festas de aniversário e, hoje, tem essa opção, com muitos sabores” — é fantasia, deslumbre e desejo na marmita.

Para Nani Mantovani, outro atrativo é justamente a fuga da encomenda. “O cliente não precisa encomendar o bolo antecipadamente. É só chegar, escolher o seu sabor e levar.”

O nascimento do fenômeno nacional

Se hoje os festivais de fatias ocorrem em diferentes cidades e acumulam filas, boa parte desse movimento nasceu com pequenas confeiteiras. É o caso da Sodrea Doces, que começou a tomar as feiras livres com docinhos e, inspiradas por festivais em Goiânia, as confeiteiras passaram a servir bolos em fatia. Primeiro, eram cinco sabores, depois cresceram tanto que, hoje oferecem 15.

O crescimento trouxe reconhecimento, mas também desafios. Deixar os filhos para batalhar na feiras dói até hoje, mas as duas amigas e mães de família sabem que o festival abriu muitas portas, para elas e para outras confeiteiras, proporcionando ainda mais oportunidades de vender.

O festival chega às redes sociais

E esse fenômeno cresceu tanto que deixou de ser uma estratégia apenas de confeitarias e chegou à produtora de conteúdo Ju Ferraz. Ela conta a Paladar que vem observando o quanto esse movimento e o burburinho das redes está levando muito dinheiro para o caixa de confeitarias. “Eu estou acompanhando esse movimento das confeiteiras pelo Brasil há um tempo e pensei: poxa, nunca fiz bolo para os meus seguidores provarem, será que essa não é a minha chance?”, revela. “Eu não tenho um ateliê, uma loja, então eu fiz na minha casa, de encontro com o que todo mundo está fazendo.”

O evento foi um sucesso e atraiu, inclusive, agradecimentos de confeiteiras que acompanham Ju. Seu sócio, Victor Brunetti, conta que algumas enviaram e-mails e mensagens nas redes sociais dizendo como “ficaram felizes, porque a Ju aumentou a demanda por bolo em fatia. Nem todas as pessoas dentre seus 2 milhões de seguidores vão conseguir comprar o da Ju, mas vão comprar de quem estiver fazendo perto deles. Isso impulsiona o sistema.”

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Como fazer um festival de fatias

Primeiro de tudo, deve-se definir o formato do bolo. Apesar de a forma retangular, com corte em generosas fatias quadradas ser o mais visto nas redes, Mantovani defende que “não existe pior ou melhor”, mas ter um padrão ajuda — e muito. “O principal é que os bolos sigam um padrão. Se um é retangular, todos devem ser, se forem redondos, que todos sejam assim. Na verdade, o retangular chama mais atenção por ser específico de festival de fatia.”

Depois, vem a escolha da quantidade de camadas, intercalando sempre massa e recheio. “Recomendo que sejam três camadas de bolo com duas de recheio, o que proporciona maior equilíbrio ao doce. Se for menos do que isso, o recheio deve ter uma camada maior e, para sustentar, necessariamente será menos cremoso. Ah, e não pode ter muitas camadas para não ficar alto e não caber na caixa de isopor, por exemplo”, defende Mantovani.

E, claro, estabelece-se um preço. “No geral, uma fatia custa entre R$ 25 e R$ 35 e o confeiteiro não pode fugir muito disso, é preciso se ajustar. Se os ingredientes são caros, venda fatias mais finas. Não adianta fugir muito dessa faixa de preço e dar margem para o cliente questionar o porquê de nas redes sociais aparecerem opções mais baratas.”

Além disso, recomenda-se que todos tenham o mesmo preço ou, no máximo, duas linhas de valor, desde que a diferença não seja muito grande. “É a mesma dinâmica de sorveteria, tem P, M e G, independentemente do sabor da bola”, reflete.

Sabores que não podem faltar

A dica de Mantovani é trabalhar com, no máximo, dez sabores, mas, no mínimo, seis, para passar a ideia de festival, de fato. “Também é importante ter os sabores mais populares, já que, muitas vezes, as pessoas vão no festival não por você, mas pela trend.”

Desse modo, “não pode faltar o Matilda (chocolatudo) com muitas camadas, algo com morango fresco, com Nutella, pistache e, claro, o pudim — muito chamativo e, por vezes, de diferentes sabores, do tradicional ao de chocolate, pistache e mais. Às vezes, vemos maracujá, coco, limão, nozes, abacaxi e outros mais secundários.”

O futuro da trend

Para Mantovani, foi dada a largada em uma nova tendência de festival. “Não acho que é como morango do amor, que aconteceu e acabou, acho que o festival vai continuar e se transformar.”

“A partir de agora, um confeiteiro que quer fazer um festival de algo que não seja fatia já tem o espaço. Ele não terá o trabalho de explicar ao cliente o que ele está fazendo.”

Então, ele não precisa parar por aí. “Por acaso, a gente está falando de fatia agora, mas sinceramente, você pode trocar por outro produto e seguir a mesma ideia de festival. No futuro, acredito que esse tipo de evento vai se expandir para cannoli, cookie, torta, e ia ser tão legal quanto”, aposta Mantovani. Mesmo na ideia de fatias, as possibilidades são inúmeras, “já vi de brownie e até de tortas salgadas, como de frango. Você pode fazer fatias de seja lá o que for, adaptar de acordo com o público”, conta.

Então, se hoje a estrela é a fatia de bolo, amanhã pode ser qualquer outra coisa. Para Mantovani, o que veio para ficar não é exatamente o produto, mas o formato: eventos que transformam um doce em experiência coletiva, compartilhável e altamente fotografável.