O Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom) deve anunciar, nesta quarta-feira (5), um corte de 0,25 ponto percentual na taxa básica de juros, levando a Selic de 14,25% para 14% ao ano. A decisão já está amplamente precificada pelo mercado: segundo dados da B3, os contratos de Opções de Copom indicavam, em 31 de julho, 95% de probabilidade de redução, contra 6,4% de manutenção. Esse movimento representa uma inversão abrupta em relação ao cenário de 24 de junho, quando a manutenção aparecia com 57,9% das chances e o corte com 39%.
Comunicado será o foco das atenções
Com a decisão praticamente dada, os olhares se voltam para o comunicado que acompanha o anúncio. Analistas esperam que o texto traga pistas sobre o ritmo futuro dos cortes e o tom geral da política monetária. “Um corte de 0,50 ponto percentual seria uma surpresa relevante. Já a manutenção da taxa em 14,25% seria interpretada como uma decisão mais dura do que o esperado”, afirma Edgar Araújo, CEO da Azumi Investimentos.
Para Vitor Kayo, economista sênior da Nomad, o cenário mais provável é que o BC mantenha a porta aberta e adote uma postura dependente dos dados, sem sinalizar os próximos passos com clareza. Kayo cita um ambiente marcado por incertezas como a duração e a intensidade do conflito no Oriente Médio, o risco de um El Niño mais forte e o período eleitoral.
Dois pontos de atenção no comunicado
André Matos, CEO da MA7 Capital, destaca dois pontos que o mercado deve observar. O primeiro é se o comunicado indicará manutenção do ritmo de cortes ou se a decisão seguirá “reunião a reunião”. O segundo é se o texto soar mais cauteloso do que os dados de inflação atuais sugerem. Isso porque o horizonte perseguido pelo Copom é a expectativa de inflação para doze meses, que piorou na prévia de julho, subindo de 4,10% para 4,19%.
Josias Bento, especialista em investimentos e sócio da GT Capital, ressalta que o aspecto mais importante é a coerência do comunicado com a decisão e, posteriormente, com a ata. Ele aponta que a projeção de curto prazo, o maior controle do dólar e a atividade econômica mais moderada estão no centro das atenções. “O mercado tende a ser coerente com a decisão, se vier mais dovish com um corte de juros. Se vierem sinalizações de novos cortes, acredito que o mercado vai acordar de mau humor na quinta-feira, com tantos riscos macroeconômicos à vista, mais uma eleição e uma incerteza fiscal muito latente”, diz.
Reação do mercado
Caso o comunicado venha com expectativas de novos cortes, Sidney Lima, da Ouro Preto Investimentos, vê possibilidade de fechamento da curva de juros e favorecimento de ativos domésticos. Por outro lado, uma visão mais cautelosa, que mencione riscos fiscais, inflação ou cenário externo, poderia levar o mercado a reduzir apostas em novos cortes, pressionando os ativos.
André Matos adverte que as taxas dos títulos públicos já caíram em todos os prazos, indicando que o mercado se posicionou para o cenário favorável. “Isso deixa o risco assimétrico. Se o comunicado vier mais duro, o normal é ver os juros futuros subindo de volta, e em junho foi exatamente isso: o corte veio como esperado e o texto deixou aberta a possibilidade de pausa”, afirma.
Edgar Araújo também considera que a sinalização de continuidade de cortes pode causar reação positiva para a Bolsa, especialmente em setores mais sensíveis aos juros, além de provocar queda nas taxas futuras. Marcos Bassani, professor, especialista em investimentos e sócio-fundador da Boa Brasil Capital, concorda: “Se o comitê aproveitar o alívio nos dados para sinalizar espaço para cortes mais rápidos ou maiores adiante, isso seria uma surpresa e poderia derrubar mais os juros futuros, impulsionar o Ibovespa, principalmente em setores dependentes de crédito e consumo interno, e valorizar prefixados e papéis atrelados à inflação”.
No entanto, Bassani ressalta que, se o corte já precificado vier acompanhado do discurso cauteloso “de sempre”, a reação deve ser discreta, já que é o que o mercado espera. Ele também observa um movimento forte no câmbio motivado pela decisão em si, já que o real parece mais amarrado ao desenrolar da tensão entre Estados Unidos e Irã e ao petróleo do que ao diferencial de juros.



