A elevação das tensões no Oriente Médio e seus possíveis impactos sobre a inflação global e os juros reforçaram a busca por ativos defensivos no mercado brasileiro. Em relatório sobre as chamadas “bond proxies” – ações que costumam se comportar de forma semelhante aos títulos de renda fixa – o Bank of America (BofA) afirma que empresas com fluxos de caixa mais previsíveis e menor risco operacional podem oferecer proteção adicional aos investidores em um cenário de maior incerteza para a curva de juros doméstica.
Segundo a equipe de analistas de estrategistas do banco, a volta das preocupações com o conflito no Oriente Médio, com elevação do petróleo, aumentou as dúvidas sobre a trajetória das taxas de juros no Brasil, ainda que os dados recentes de inflação tenham surpreendido positivamente. Nesse contexto, o BofA recomenda uma estratégia diversificada, combinando companhias menos sensíveis aos movimentos de juros com outras que podem se beneficiar caso a curva volte a fechar.
Utilities: Axia e Isa Energia como principais escolhas defensivas
Entre as utilities (empresas de energia e saneamento), o banco destaca a Axia (AXIA3) e a Isa Energia (ISAE4) como as principais escolhas na ponta mais defensiva do portfólio. A Axia oferece o maior potencial de distribuição de dividendos dentro da cobertura do banco, com retorno acumulado próximo de 30% em três anos, enquanto a Isa Energia combina receitas integralmente corrigidas pela inflação e uma taxa interna de retorno (TIR) real de cerca de 10%, que poderia superar 15% caso seja solucionada a questão de seus passivos previdenciários.
Equatorial é a favorita na ponta sensível aos juros
Na ponta mais sensível ao comportamento dos juros, a favorita é a Equatorial (EQTL3). O BofA destaca a longa duração dos fluxos de caixa da companhia, estimada em aproximadamente 12 anos, além de uma alavancagem superior a três vezes dívida líquida sobre Ebitda até 2028 e uma TIR real próxima de 12%. O banco também enxerga potencial adicional relacionado a possíveis operações de fusões e aquisições no segmento de distribuição de energia nos próximos seis a 12 meses.
Concessionárias de rodovias: Motiva e Ecorodovias
No setor de transportes, a preferência recai sobre as concessionárias de rodovias. O BofA mantém recomendação positiva para Motiva (MOTV3) e Ecorodovias (ECOR3), citando retornos implícitos de 13,2% e 19%, respectivamente. A Motiva é apontada como uma das melhores alternativas em um cenário de juros persistentemente elevados, graças à sua curta duração de fluxo de caixa — cerca de seis anos — e à baixa alavancagem, inferior a três vezes dívida líquida sobre Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciações e amortizações). Já a Ecorodovias aparece como a principal beneficiária de um eventual ciclo mais rápido de queda de juros. O relatório também mantém visão construtiva para a Rumo (RAIL3), que possui recomendação de compra e retorno implícito estimado em 10,3%. Na avaliação do banco, os múltiplos atuais refletem um cenário excessivamente pessimista para as tarifas ferroviárias, enquanto uma eventual recuperação do ciclo agrícola poderia destravar valor para a companhia.
Shoppings centers: Allos se destaca com dividend yield de 13%
No segmento de shoppings centers, o BofA destaca a previsibilidade dos resultados como principal atrativo em um ambiente de elevada volatilidade macroeconômica. Embora o setor não apresente os retornos implícitos mais elevados entre as bond proxies analisadas, os analistas avaliam que os operadores de shopping tendem a manter resultados resilientes mesmo em um cenário de nova escalada dos conflitos no Estreito de Ormuz. A favorita do setor é a Allos (ALOS3), sustentada por um dividend yield (dividendo sobre preço) próximo de 13%. O banco também destaca que as companhias devem encerrar 2026 com alavancagem próxima de duas vezes dívida líquida sobre Ebitda, reforçando o perfil defensivo do segmento.
Telecomunicações: BofA cauteloso com Vivo e TIM
Por outro lado, o BofA segue cauteloso com as empresas de telecomunicações. Mesmo após a recente correção das ações, o banco avalia que Vivo (VIVT3) e TIM (TIMS3) continuam negociando a níveis que já embutem premissas bastante otimistas. Segundo os analistas, os retornos implícitos das duas operadoras — 7,9% para Vivo e 8,4% para TIM — são pouco atrativos quando comparados a outras alternativas defensivas. Além disso, os múltiplos atuais pressupõem crescimento consistente de receita, margens resilientes, menor intensidade de investimentos e despesas controladas com aluguéis, deixando pouco espaço para eventuais frustrações operacionais.



