O Brasil, que já depende de fontes renováveis para mais de 80% de sua matriz elétrica, pode perder essa vantagem se não adotar escolhas estratégicas adequadas. A energia nuclear, frequentemente negligenciada no debate público, oferece uma combinação de confiabilidade, baixo impacto em fatalidades e custo competitivo que a torna uma peça-chave para garantir a segurança energética do país nas próximas décadas.
Cenário energético global e o desafio da sustentabilidade
No mundo, cerca de 65% da demanda por eletricidade ainda é suprida por combustíveis fósseis (petróleo, gás natural e carvão mineral), enquanto as fontes renováveis e a nuclear respondem pelos 35% restantes. Esse quadro impõe um desafio duplo: não apenas promover a transição energética, incorporando novas fontes, mas também a adição energética, ampliando a geração das fontes já disponíveis, pois a simples substituição entre fontes não atenderá ao crescimento projetado da demanda.
O Brasil, nesse contexto, parte de uma posição privilegiada. Mais de 80% de sua necessidade elétrica é atendida por fontes renováveis, com o restante vindo de outras fontes, incluindo a nuclear. No entanto, essa situação confortável pode se dissipar rapidamente. O potencial hidrelétrico do país está próximo do esgotamento, e as novas usinas só são viáveis na modalidade a fio d'água, que, como outras renováveis, sofre com a intermitência — a produção varia conforme chuvas, ventos e radiação solar, dificultando a previsibilidade e a estabilidade do fornecimento.
Deathprint: o impacto humano de cada fonte
Diante dessas limitações, a energia nuclear emerge como uma alternativa confiável, com baixas emissões de CO2 e ocupação reduzida de área. Um parâmetro pouco discutido, mas crucial, é o chamado deathprint, que mede fatalidades por mil gigawatt-hora (GWh) gerado, conforme dados da Forbes (edição de junho de 2012). Nesse quesito, a nuclear apresenta o menor impacto: cerca de 90 fatalidades por mil GWh, e a maioria não decorre de acidentes radiológicos ou nucleares, mas de acidentes de trabalho na cadeia produtiva do ciclo do combustível.
Comparativamente, o carvão mineral registra 100.000 fatalidades por mil GWh em todo o mundo, majoritariamente por problemas respiratórios na população. As hidrelétricas vêm em seguida, com 1.400 ocorrências por mil GWh, seguidas pela solar (440) e pela eólica (150), todas relacionadas a acidentes de trabalho em suas cadeias produtivas. São números desconfortáveis, mas é essencial expô-los à sociedade para uma avaliação criteriosa e transparente dos riscos e benefícios de cada fonte.
Custo total: geração, transmissão e vida útil
Outro aspecto fundamental é o custo da energia fornecida, que inclui não só a geração, mas também transmissão, distribuição, manutenção e vida útil das instalações. Mais uma vez, a nuclear se destaca. Sua localização é quase totalmente discricionária, podendo ser instalada em qualquer lugar, ao contrário das renováveis, que frequentemente exigem custos significativos de transmissão. A vida útil inicial de uma usina nuclear é de 60 anos, podendo ser estendida por mais 20 ou 40 anos, antes do descomissionamento, com a substituição de alguns componentes. E, uma vez descomissionada, a remediação do local é quase natural, sem grandes intervenções de engenharia, graças à pequena área ocupada.
No que tange ao custo do MWh gerado, a nuclear também leva vantagem. Cerca de 80% do valor da tarifa corresponde à amortização do investimento, parcela destinada a honrar os compromissos financeiros da construção, amortizada em média em 18 anos. O custo de operação, incluindo combustível e manutenção, representa menos de 20% da tarifa. Isso significa que, após 18 anos, a tarifa pode ser reduzida em 80%, igualando-se ao custo médio estimado para eólicas e solar, e mantendo-se nesse patamar pelos 40 anos seguintes de operação.
Geração contínua e fator de disponibilidade superior
Além do custo, a nuclear oferece outra vantagem decisiva: a geração contínua, 24 horas por dia, sete dias por semana, 11 meses por ano (com um mês de parada para manutenção). Isso resulta em um fator de disponibilidade acima de 85%, muito superior aos 40% ou 60% das renováveis. Por esse ângulo, as usinas nucleoelétricas apresentam o menor custo de geração por MWh.
Portanto, ao considerar os três pilares da sustentabilidade — viabilidade econômica, garantia de fornecimento e redução de impactos ambientais —, a energia nuclear se posiciona como uma solução robusta. O Brasil, com sua matriz já limpa, pode se beneficiar enormemente ao integrar a nuclear como complemento estratégico, assegurando estabilidade e competitividade para o futuro energético do país.



