TSMC supera expectativas mas ações caem; entenda por quê
TSMC supera expectativas mas ações caem; entenda

A TSMC (TSMC34), maior fabricante de chips do mundo e fornecedora essencial para empresas de inteligência artificial, divulgou nesta quinta-feira (16) um resultado trimestral que superou as expectativas do mercado. Apesar disso, suas ações caíram e arrastaram consigo papéis de outras companhias do setor de semicondutores nos Estados Unidos. Por volta das 14h (horário de Brasília), o Nasdaq Composite recuava 0,94%, e o Nasdaq 100, índice mais concentrado em tecnologia, caía 1,33%. O S&P 500 tinha perda mais moderada, de 0,29%, enquanto o Dow Jones, menos exposto a empresas de tecnologia, subia 0,09%.

O movimento, que à primeira vista parece contraditório, tem explicação em dois pontos específicos do balanço da TSMC que preocuparam os investidores, mesmo com o lucro e a receita vindo acima do esperado. A temporada de resultados até aqui vem surpreendendo positivamente na maioria dos casos: das 40 empresas do S&P 500 que já divulgaram balanços, mais de 87% trouxeram números acima do esperado.

Margem bruta abaixo do esperado

A TSMC reportou alta de 77% do lucro por ação no segundo trimestre, 11% acima do que o mercado projetava. A receita também veio em linha ou acima das estimativas. No entanto, o mercado olhou com lupa a margem bruta da empresa, métrica que mostra quanto sobra da receita depois de descontar os custos diretos de produção. A margem veio acima do piso da própria projeção da companhia, mas abaixo do que a parte mais otimista do mercado esperava, e o guidance para o terceiro trimestre indica que essa margem deve encolher um pouco à frente.

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Em teleconferência com analistas, o presidente do conselho da TSMC, C.C. Wei, explicou a origem dessa pressão: “Esperamos que a rápida entrada em produção da nossa tecnologia de 2 nanômetros dilua nossa margem bruta em cerca de 3 a 4 pontos percentuais”. Para investidores acostumados a projeções cada vez mais altas de lucratividade no setor, mesmo uma leve piora de expectativa pode pesar mais do que um lucro recorde no trimestre que já passou.

Aumento de capex gera dúvidas

O segundo ponto de atenção foi o forte aumento no capex, termo usado para o capital que uma empresa investe em ativos como fábricas, equipamentos e infraestrutura. A TSMC elevou sua projeção do ano de uma faixa entre US$ 52 bilhões e US$ 56 bilhões para US$ 60 bilhões a US$ 64 bilhões, além de anunciar um aporte adicional de US$ 100 bilhões em fábricas no Arizona, que eleva o compromisso total da companhia nos Estados Unidos para US$ 265 bilhões.

Em condições normais, mais investimento seria lido como sinal de confiança no crescimento futuro, e essa é a leitura que a própria companhia tenta reforçar. Wei defendeu essa lógica: “um nível mais alto de capex está sempre correlacionado a oportunidades de crescimento maiores nos anos seguintes”. Ele também reforçou a confiança na demanda por chips ligados a inteligência artificial: “acredito que, deste momento em diante, até provavelmente 2029 e 2030, a demanda será muito forte. A tendência é tão robusta que acredito estarmos testemunhando uma espécie de nova indústria”.

Mas esse tipo de anúncio também alimenta uma pergunta que vem incomodando investidores em todo o setor: até que ponto esse volume de capex vai gerar retorno proporcional, e até que ponto ele está sendo financiado de forma sustentável, sem comprometer a geração de caixa das empresas no curto prazo.

Reação em cadeia no setor

Esse comportamento ajuda a explicar por que ações como Arm Holdings (ARM), Micron Technology (BDR: MUTC34), Advanced Micro Devices (A1MD34), Broadcom (AVGO34) e os recibos americanos da SK Hynix caíram junto com a TSMC nesta quinta, com quedas que foram de 3% a mais de 7%. O ETF de semicondutores VanEck (SMH) recuou mais de 2%. Essas empresas não são diretamente afetadas pelo balanço da TSMC, mas fazem parte da mesma cadeia de investimentos em inteligência artificial, e por isso reagem em bloco a sinais que colocam esse ciclo de gastos em xeque.

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Mesmo com a reação negativa dos papéis no pregão desta quinta, os principais bancos que acompanham a TSMC mantiveram recomendação de compra após o resultado. O Goldman Sachs elevou seu preço-alvo para os próximos 12 meses de NT$ 3.000 para NT$ 3.100, o que implica um potencial de valorização de 25,5% frente ao fechamento mais recente da ação. O JPMorgan também recomenda compra (overweight), com preço-alvo de NT$ 3.100 e potencial de alta de cerca de 27%. Já o Itaú BBA atualizou seu preço-alvo para NT$ 3.113, um potencial de valorização de 26%, mantendo recomendação de compra (outperform).

Nos três casos, a leitura dos bancos segue direção parecida: o aumento no capex é visto como reforço à tese de demanda por chips ligados a inteligência artificial nos próximos anos, enquanto a pressão pontual sobre a margem bruta é tratada como algo temporário, que não muda a avaliação de longo prazo sobre a companhia.

Riscos monitorados

O mercado já apontava que a tese de investimento em inteligência artificial segue de pé, mas alertava para riscos que vêm se acumulando: preços de ações já esticados no setor, um volume crescente de emissão de dívida das empresas ligadas ao tema para financiar essa expansão, e um posicionamento de mercado muito concentrado nesses papéis. Segundo o Morgan Stanley, esses fatores tendem a gerar mais oscilação nos preços das ações, sem necessariamente mudar a direção de longo prazo dos retornos.

Outra fonte de atrito que vem crescendo é a resistência de comunidades americanas à construção de novos data centers, motivada por preocupações com o impacto nas contas de energia, no uso de água e no transtorno das obras. Segundo o Morgan Stanley, cerca de US$ 156 bilhões em projetos de data center foram cancelados ou adiados em 2025, e outros US$ 130 bilhões passaram pela mesma situação apenas no primeiro trimestre de 2026. Esse tipo de entrave tende a encarecer e atrasar a construção da infraestrutura de inteligência artificial nos EUA, ainda que não represente, segundo o banco, um risco de parar o processo por completo.