Transmissões automatizadas revolucionam caminhões no Brasil
Transmissões automatizadas revolucionam caminhões no Brasil

O caminhão que pode evitar atropelamentos: veja as tecnologias que prometem reduzir acidentes. Câmeras 360°, radares, microfones, inteligência artificial e frenagem automática estão transformando o transporte rodoviário. No Brasil, as transmissões automatizadas já são realidade há 25 anos e dominam o mercado de pesados.

O fim das trocas manuais exaustivas

Em média, um caminhoneiro que trabalha de oito a dez horas em trechos mistos na cidade e na rodovia faz entre 1.500 e 4.000 trocas de marchas por dia em um caminhão com transmissão manual. Isso resulta em milhares de movimentos de braço e acionamentos da embreagem com o pé esquerdo, que podem trazer fadiga e possíveis lesões por esforço repetido.

O advento da automatização, que chegou ao Brasil no mercado de pesados há 25 anos, veio para mudar este panorama. Este tipo de transmissão faz a troca automaticamente da marcha, mas tecnicamente, a caixa é a mesma.

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Diferença entre câmbio automático e automatizado

Um câmbio automático, como o que vemos nos carros de passeio e em alguns tipos de ônibus e caminhões, é uma caixa de transmissão que utiliza um componente chamado conversor de torque no lugar da embreagem. Ele faz as trocas de marchas de forma fluida e imperceptível e prioriza o conforto máximo. No entanto, este tipo de transmissão costuma ter um preço de aquisição mais alto, custo de manutenção elevado e consumo de combustível maior.

A transmissão automatizada, que é a mais utilizada no transporte de cargas, é uma caixa mecanicamente idêntica à manual, com disco de embreagem. A diferença está nos atuadores eletrônicos e nos robôs que fazem o trabalho do pé e da mão do motorista, realizando as trocas de marchas de forma automática, sem pedal de embreagem. Este tipo de caixa é mais econômico no custo de aquisição, na manutenção e no consumo de combustível. Por isso, as transmissões automatizadas são largamente utilizadas em caminhões de diversas categorias de peso no Brasil, principalmente nos pesados. Atualmente, cerca de 93% dos caminhões pesados que saem de fábrica no país recebem este tipo de transmissão.

Como tudo começou?

O uso das transmissões automatizadas em caminhões pesados no Brasil teve início em 2001 com a Scania, que foi a primeira a utilizar este tipo de caixa em seus modelos fabricados no Brasil, a Opticruise, seguida pela Volvo, em 2003, com a caixa I-Shift nos caminhões da linha FH.

Desde 2018, nenhum caminhão Scania sai de fábrica com transmissão manual, segundo Marcelo Barreto, engenheiro de produto de caminhões rodoviários da Scania Operações Comerciais Brasil. “No começo, havia muita resistência por parte dos motoristas e gestores de frotas na adoção das transmissões automatizadas”, diz.

Ele conta que o tempo mudou isso: “A entrega da padronização na operação e os ganhos com economia de combustível e de conforto para o motorista deste tipo de caixa foi fazendo com que as automatizadas ganhassem mercado e dominassem a categoria de pesados. Hoje, 100% de toda a produção Scania no Brasil é equipada com as transmissões Opticruise. Nem se o cliente pedir, temos a opção de transmissão manual”, conta o engenheiro.

Como este “robô” trabalha?

De acordo com o engenheiro da Scania, a caixa automatizada faz os dois movimentos que fazemos com o câmbio manual de um carro de passeio, por exemplo: o movimento lateral e o longitudinal, em busca do encaixe de cada marcha. “O robô que trabalha na caixa automatizada é formado por válvulas solenoides comandadas por uma central eletrônica que faz estes movimentos que antes eram da mão do motorista, automaticamente, de forma eletropneumática”, diz.

Ele prossegue: “Na parte superior da caixa de câmbio, duas válvulas que fazem todo esse funcionamento. Dependendo do regime de operação, o sistema vai fazer uma substituição para uma primeira marcha, neutro, primeira, segunda, terceira ou até para uma marcha mais acima”, explica Barreto.

Os módulos eletrônicos do caminhão, que se comunicam com o motor e as rodas, informam o sistema com dados sobre o giro do motor, o torque entregue, a velocidade das rodas, a inclinação do caminhão e diversos outros. Os processadores dão o comando à caixa para que a marcha correta seja engatada a cada momento da viagem ou da operação.

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Barreto explica que a transmissão automatizada utiliza uma caixa do tipo “seca”, sem anéis sincronizadores. “Como o robô consegue engatar cada marcha com precisão, a ausência dos anéis sincronizadores faz sentido, pois barateia o conjunto e evita peças de desgaste, que dão manutenção. Para se ter uma ideia, o câmbio Opticruise da Scania toma a decisão e faz cada troca de marcha em um intervalo de 150 milissegundos”, diz o especialista.

No sistema da Scania e em outras caixas presentes no mercado, como os modelos da ZF, da Mercedes-Benz, e da Volvo, o inclinômetro da caixa e seu “cérebro eletrônico” são capazes de medir o terreno e saber se o caminhão está rodando no plano, em aclive ou declive. Com isso, a transmissão grava os dados e “aprende” a topografia de cada trecho da viagem. “Este recurso na Scania se chama CCAP, ou Controle de Cruzeiro Adaptativo Preditivo. Ele antecipa os trechos da rodovia e preserva a inércia do caminhão, dosando as marchas e a aceleração de acordo com a necessidade, contribuindo com a segurança da viagem e com a economia de combustível”, conclui Marcelo Barreto.

Quais são as principais caixas automatizadas disponíveis no Brasil?

Além de Scania e Volvo, atualmente, todos os fabricantes de caminhões brasileiros oferecem transmissões automatizadas em suas linhas de veículos leves, médios, semipesados e pesados.

Na Volkswagen Caminhões e Ônibus, os modelos da família Meteor, de cavalos mecânicos extrapesados, utilizam as transmissões ZF TraXon de doze velocidades, a mesma caixa utilizada pelos caminhões Iveco S-Way 480 e 540 e DAF XF 480 e 530.

Por conceito, a TraXon é uma transmissão com projeto modular, que permite diversas configurações e montagens. Além disso, ela trabalha com um software e instruções eletrônicas programadas e criadas pela própria ZF, ajudando o computador a “conversar” com os robôs que fazem as operações milimétricas de trocas de marcha e relações com o torque do motor.

Na Mercedes-Benz, os caminhões pesados das linhas Axor e Actros utilizam caixa própria, o modelo G291 de doze velocidades que também oferece controle de cruzeiro adaptativo e preditivo.

Nos leves e médios, a adoção da transmissão automatizada é mais lenta e sua penetração é menor, da ordem de 50%. Nestas aplicações, transmissões ZF e Eaton de cinco, seis e oito velocidades, além das caixas próprias da Mercedes-Benz, no caso dos modelos Accelo e Atego.

Com precisão e tecnologia, as transmissões automatizadas ajudam o transporte brasileiro a rodar com mais conforto e eficiência há 25 anos.