A produção industrial brasileira registrou queda de 1,8% em junho na comparação com maio, interrompendo dois meses consecutivos de alta e marcando o maior recuo mensal desde dezembro de 2023, conforme dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O resultado veio abaixo das expectativas do mercado, que projetava uma variação negativa de 0,6%.
Setor opera 1,3% abaixo do nível pré-pandemia
Com o resultado de junho, a indústria opera 1,3% abaixo do patamar registrado em fevereiro de 2020, antes da pandemia de Covid-19. Apesar da queda mensal, o setor acumula alta de 1,5% no primeiro semestre de 2026, demonstrando resiliência ao longo do ano.
Na comparação com junho de 2025, a produção industrial cresceu 1,2%, mas o ritmo desacelerou frente aos meses anteriores. O índice de média móvel trimestral recuou 0,4% no trimestre encerrado em junho, reforçando a tendência de desaceleração.
Queda atinge 16 das 25 atividades pesquisadas
Em junho, 16 das 25 atividades industriais pesquisadas apresentaram queda na produção. Entre os destaques negativos estão as indústrias de produtos alimentícios (-3,9%), veículos automotores (-3,5%) e produtos derivados do petróleo (-2,8%). Esses três segmentos exerceram as maiores influências negativas no resultado global.
Por outro lado, alguns setores registraram crescimento no mês, como máquinas e equipamentos (3,2%) e produtos de metal (2,1%), mas sem força para reverter a queda geral.
Impacto sobre o PIB e expectativas para o segundo semestre
O resultado negativo em junho reforça a percepção de desaceleração da economia brasileira no segundo trimestre. Segundo economistas consultados pelo Valor, a queda na produção industrial pode impactar o Produto Interno Bruto (PIB) do período, que deve mostrar crescimento próximo de zero.
Para o segundo semestre, a expectativa é de recuperação gradual, impulsionada por cortes na taxa Selic e pela safra agrícola. No entanto, a alta dos juros nos Estados Unidos e a instabilidade política doméstica podem limitar o avanço.
O IBGE destacou que a queda de junho foi influenciada por fatores pontuais, como a paralisação de algumas plantas industriais para manutenção e a redução na demanda por bens de consumo duráveis. "A produção industrial ainda enfrenta desafios estruturais, mas os números do semestre mostram que o setor segue crescendo", afirmou André Macedo, gerente da pesquisa do IBGE.
Análise setorial: bens de capital e bens de consumo
Entre as grandes categorias econômicas, a produção de bens de capital caiu 2,5% em junho, enquanto bens de consumo duráveis recuaram 3,4%. Bens intermediários tiveram queda de 1,2%, e bens de consumo semi e não duráveis registraram baixa de 1,0%.
No acumulado do primeiro semestre, bens de capital cresceram 4,2%, puxados pelo setor de máquinas e equipamentos. A produção de bens de consumo duráveis, por sua vez, acumula alta de 3,8% no período, refletindo a recuperação do mercado de veículos.
Comparação regional e perspectivas
A queda na produção industrial foi generalizada entre as regiões, com destaque para o Sudeste, que recuou 2,1%. O Sul apresentou baixa de 1,5%, enquanto o Nordeste registrou queda de 0,9%. A região Norte foi a única a apresentar crescimento, com alta de 0,4%.
Para os próximos meses, a indústria deve se beneficiar de um ambiente externo mais favorável, com a queda nos preços das commodities e a recuperação da demanda chinesa. No entanto, a incerteza fiscal e a alta da taxa de câmbio podem pressionar os custos de produção.
O mercado seguirá atento aos dados de emprego e confiança do empresário industrial para calibrar as expectativas para o segundo semestre. A pesquisa Sondagem Industrial da Confederação Nacional da Indústria (CNI), divulgada na semana passada, mostrou queda na confiança do setor para os próximos seis meses.
Em resumo, a queda de 1,8% em junho representa um ponto de atenção, mas o acumulado do semestre ainda mostra crescimento. A indústria brasileira enfrenta desafios conjunturais, mas mantém resiliência diante do cenário econômico adverso.



