O número de pedidos de falência no Brasil registrou alta de 18% no primeiro semestre de 2026 em comparação com o mesmo período do ano anterior, segundo dados da Serasa Experian. Foram 1.204 solicitações entre janeiro e junho, ante 1.020 no mesmo intervalo de 2025. O aumento é puxado principalmente por micro e pequenas empresas, que responderam por 72% dos requerimentos.
Cenário econômico adverso pressiona empresas
Especialistas ouvidos pelo Valor atribuem o crescimento das falências à combinação de juros elevados, inflação persistente e redução do crédito. A taxa básica de juros (Selic) encerrou o semestre em 14,25% ao ano, o que encarece o custo do capital e dificulta a reestruturação de dívidas. "As empresas que já estavam fragilizadas pela pandemia e pela crise de 2023 não conseguiram se recuperar com a alta dos juros", afirma o economista-chefe de uma consultoria, que preferiu não se identificar.
Setores mais afetados
Entre os setores, comércio varejista lidera os pedidos, com 38% do total, seguido por serviços (32%) e indústria (20%). A construção civil também aparece com relevância, representando 10% dos requerimentos. "O varejo é particularmente sensível ao crédito ao consumidor, que está mais caro e escasso", explica a analista de crédito da Serasa, Maria Helena Silva.
Recuperações judiciais também aumentam
Além das falências, os pedidos de recuperação judicial cresceram 25% no período, totalizando 890 solicitações. Esse movimento indica que muitas empresas buscam evitar a quebra, mas enfrentam dificuldades para renegociar com credores. "A recuperação judicial é um instrumento importante, mas o alto custo do processo e a demora na decisão judicial muitas vezes levam à falência", pondera o advogado especialista em direito empresarial, Carlos Eduardo Lima.
Perspectivas para o segundo semestre
As projeções para o segundo semestre não são animadoras. A Serasa espera que o número de falências continue em alta, caso o Banco Central não sinalize cortes na Selic. "A tendência é de manutenção do cenário de estresse financeiro até que haja uma mudança na política monetária", diz o relatório. Alguns analistas, no entanto, acreditam que a inflação em desaceleração pode abrir espaço para redução dos juros no último trimestre, o que poderia aliviar a situação das empresas.
Impacto na economia e no emprego
O aumento das falências tem impacto direto no emprego: estima-se que cada falência de micro e pequena empresa elimine, em média, 8 postos de trabalho. No total, o movimento pode ter gerado a perda de cerca de 10 mil empregos formais no semestre. Para o economista da FGV, Paulo Nogueira, "a destruição de empresas é um sinal de que a economia está passando por um processo de reestruturação, mas o custo social é alto".
Medidas para mitigar o problema
Entidades empresariais têm cobrado do governo medidas para facilitar o acesso ao crédito e reduzir a burocracia. A Confederação Nacional do Comércio (CNC) sugere a criação de linhas de financiamento específicas para micro e pequenas empresas, com taxas subsidiadas. Em nota, a CNC afirma que "é fundamental apoiar os pequenos negócios, que são os maiores geradores de emprego no país".
Enquanto isso, o cenário permanece desafiador. As empresas que conseguirem se adaptar rapidamente às novas condições de mercado terão mais chances de sobreviver. Especialistas recomendam revisão de custos, renegociação de dívidas e busca por alternativas de financiamento, como o mercado de capitais.



