A Dell não é mais apenas uma fabricante de computadores. Embora mundialmente reconhecida por seus PCs, a gigante da tecnologia passa por uma transformação estratégica profunda, consolidando-se como potência em infraestrutura para inteligência artificial (IA). Para Diego Puerta, CEO da Dell no Brasil, essa mudança é resposta direta às demandas do mercado por mais capacidade de processamento e dados. “Gostamos de ser lembrados por uma empresa que faz PCs. Mas, hoje, individualmente, a infraestrutura para esse mundo acelerado por IA é o maior negócio que a gente tem”, afirma.
Resultados recordes e domínio da infraestrutura
A mudança já se reflete nos números. A empresa iniciou o ano fiscal de 2027 com resultados recordes: no primeiro trimestre, reportou receita de US$ 43,8 bilhões. Desse total, a unidade de infraestrutura respondeu por US$ 29 bilhões, enquanto a divisão de PCs e dispositivos registrou US$ 14,6 bilhões. Ou seja, a infraestrutura já representa dois terços da receita global, impulsionada pela demanda por IA, servidores, armazenamento e modernização de data centers.
Puerta, que participou da chegada da Dell ao Brasil há 27 anos, explica que a empresa não abandonou as raízes, mas expandiu o escopo. A Dell se posiciona como parceiro estratégico para empresas que buscam implementar IA sem os riscos e a latência de depender exclusivamente de nuvens públicas. “No final do dia, o que determina a qualidade dos projetos é a qualidade dos dados. E a solução de IA tem que estar onde os dados estão. Por isso, investir na infraestrutura voltou a ser importante”, defende.
Produção local e vantagem competitiva
O resultado reforça os investimentos da empresa na produção local de infraestrutura para IA e datacenters. Em janeiro, a Dell anunciou a fabricação do PowerEdge XE7745 no Brasil, seu primeiro servidor desenvolvido especificamente para aplicações de IA. “Temos um compromisso de longo prazo com o mercado brasileiro. É complexo e difícil de operar, mas aprendemos como fazer e todos os investimentos têm valido a pena. Hoje, mais de 95% do que vendemos no Brasil é produzido aqui, na nossa unidade fabril. Isso nos dá uma vantagem competitiva enorme”, diz Puerta.
O Brasil é o único país do mundo que usa essa força apenas para o mercado interno. “Produzimos aqui tudo que é feito lá fora. Nunca fomos o mais barato, nem vamos ser. Prezamos pela qualidade e entrega”, afirma. Os preços, porém, devem crescer nos próximos meses devido à alta demanda por componentes sofisticados, como memórias de alta performance e SSDs, que gerou desequilíbrio na cadeia de suprimentos global.
Cenário inflacionário e escassez de componentes
Puerta alerta que consumidores e empresas já sentem o reflexo no bolso. “Desde novembro do ano passado, o preço das principais commodities da nossa indústria disparou”, diz. Segundo ele, o cenário é inflacionário e deve persistir por pelo menos mais um ou dois anos. “Não tem como deixar de repassar isso para o preço final. O servidor de IA, que tem demanda maciça de memória, tem aumento bastante expressivo.”
Atualmente, o mercado está desabastecido. Apesar da escassez global, a Dell no Brasil consegue mitigar parte dos problemas graças à manufatura local. “Ficamos menos desabastecidos que a maior parte dos concorrentes pela solidez da nossa operação”, explica. A escassez atual difere da ocorrida durante a pandemia: naquela época, faltou qualquer tipo de microprocessador, afetando até a indústria automotiva, mas o mercado se reequilibrou rapidamente. Agora, faltam itens mais complexos, que exigem níveis de tecnologia e investimentos maiores.
IA como decisão estratégica e de cultura
Além do custo dos componentes, o próprio custo da IA pode aparecer nas contas das empresas. “As pessoas ainda estão buscando como realmente gerar valor com IA, onde focar e como usar. No final do dia, esta não é uma transformação de tecnologia, é uma decisão estratégica e de cultura. Não basta eliminar processo, precisa saber qual eliminar, qual transformar”, afirma Puerta.
Operação brasileira como polo de talentos e inovação social
Há 27 anos no país, a operação brasileira se firmou como polo exportador de talentos, com mais de 250 profissionais brasileiros ‘exportados’ para operações internacionais. Também é polo de conhecimento: em um centro global instalado no país, mais de mil profissionais desenvolvem software para a Dell no mundo inteiro. Recentemente, a companhia investiu em um centro global de design dentro do Instituto Caldeira, no Rio Grande do Sul. “O posicionamento que construímos no Brasil é único”, diz o executivo.
A empresa também possui iniciativas sociais. Uma delas é o LIDI (Laboratório de Inovação e Desenvolvimento em Acessibilidade), criado em 2011 em parceria com a Universidade Estadual do Ceará. O projeto desenvolve soluções tecnológicas para pessoas com deficiência, muitas vezes com a participação direta de desenvolvedores que possuem as mesmas limitações, criando um ciclo de inovação inclusiva. “Desenvolvemos um portfólio de soluções que já foi eleito como um dos projetos mais inovadores do mundo pela Fast Company”, afirma.
Outra iniciativa de impacto é o “Solar Hub”, instalado em uma comunidade ribeirinha remota na Amazônia. O projeto levou eletricidade solar, conectividade via satélite e infraestrutura para uma região que antes carecia de serviços básicos. “A gente mostra na prática que a tecnologia, quando bem aplicada, muda a vida das pessoas”, conclui o executivo.



