Uma tesoura cirúrgica de aproximadamente 18 centímetros foi esquecida no abdômen de uma paciente durante uma histerectomia realizada na Santa Casa de Misericórdia de Bragança Paulista (SP). O instrumento permaneceu no corpo por cerca de três meses e só foi descoberto em abril, após a paciente sentir dores intensas.
Descoberta do objeto
Érica Cristina Bannai Von Hoonholtz, de 36 anos, passou pela cirurgia de remoção do útero em janeiro. Em abril, com dores abdominais severas e vômitos, ela foi levada às pressas ao hospital. Um raio-X revelou a tesoura dentro do abdômen. "Eu já cheguei no hospital desnorteada de dor. Eles me medicaram, mas não passava. Não cortava o vômito, não cortava a dor. Muita dor, era desesperador. Parecia que tinha algo querendo sair de dentro de mim", relatou Érica ao g1.
Cirurgias subsequentes
Na madrugada do dia 11 de abril, Érica foi submetida a uma nova cirurgia para retirar a tesoura. Durante o procedimento, os médicos constataram que parte do intestino delgado havia necrosado. Ao todo, ela passou por quatro cirurgias: a histerectomia original, a retirada da tesoura, uma para correção de hérnia e drenagem de abscesso intestinal, e outra para tratar um abscesso hepático. "Agora que tá caindo minha ficha, né? De todo risco de vida que eu tive.. Eu tô me recuperando, eu tô tentando entender psicologicamente ainda tudo que eu tô passando. Vamos torcer agora pra eu me recuperar, porque senão eu tenho que voltar novamente pro centro cirúrgico", disse ela.
Assistência e acordo
Após a descoberta, a Santa Casa reconheceu o ocorrido e passou a oferecer assistência médica à paciente, que perdeu o convênio de saúde. O hospital custeia os atendimentos relacionados ao caso e fornece acompanhamento psicológico para os três filhos de Érica. Dois dias após a retirada da tesoura, advogados do médico responsável pela histerectomia procuraram Érica com uma proposta de acordo, mas as conversas não avançaram. A Santa Casa tentou intermediar uma reunião, mas a paciente preferiu não negociar.
Suposta oferta de cirurgia estética
Érica alega que, antes e depois da histerectomia, o médico insistiu para que ela realizasse uma cirurgia estética de retirada de excesso de pele e gordura abdominal, mediante pagamento particular de R$ 8,5 mil. Durante uma internação em julho, ela reencontrou o médico no hospital e se incomodou ao vê-lo atendendo normalmente.
Medidas legais
Além do boletim de ocorrência registrado, o caso tramita na esfera criminal. Segundo consulta ao Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP), desde 28 de maio há um Termo Circunstanciado na Vara do Juizado Especial Cível e Criminal de Bragança Paulista, ainda em andamento.
Posicionamento da Santa Casa e do médico
A Santa Casa de Misericórdia de Bragança Paulista informou ao g1 que, "em cumprimento ao dever de sigilo assistencial, à privacidade dos pacientes e à legislação de proteção de dados pessoais", não comenta casos individualizados, mas permanece à disposição das autoridades. O g1 procurou o médico responsável pela cirurgia, mas não obteve retorno até a última atualização desta matéria.



