Há quatro meses, o casal Cristiano Soares, de 42 anos, e Rejanny Soares, de 28, trocou a vida em Campinas por Assunção. A escolha do novo endereço reuniu uma lista com três países da América Latina. O Paraguai ganhou do Panamá e do Uruguai. Na decisão, pesaram o modelo de tributação, a sensação de segurança e o cenário político.
“Escolhemos Paraguai até mesmo por proteção de patrimônio. O imposto foi o motivo inicial, mas depois vimos benefícios de qualidade de vida. No Brasil, vivíamos em condomínio fechado por medo. Aqui também não tem polarização política forte, que desestabiliza o empresário. Então foi um conjunto de fatores”, relata o casal.
Números da migração
Cristiano e Rejanny não são os únicos a migrar para o Paraguai em busca de uma carga tributária diferente da do Brasil. De acordo com o Departamento de Migrações do Paraguai, em 2024, cerca de 17 mil brasileiros conseguiram autorização para morar no país. Em 2025, esse número ultrapassou 23 mil. Hoje, o Paraguai abriga a terceira maior comunidade de brasileiros no exterior, um total de 263 mil, segundo dados do Itamaraty. No entanto, o contingente pode ser ainda maior, já que os números mais recentes são de 2023.
Quem acompanha as movimentações entre os dois países há algumas décadas confirma o boom. Desde setembro do ano passado, o perfil de clientes da advogada especializada em imigração empresarial, Heliza Rocha, mudou. “Antes trabalhava com imigração para atender os estudantes de medicina. Mas há quase um ano a procura de empresários cresceu. Como sempre atendi fazendeiros que moram no Brasil e tinham propriedades rurais aqui, quando aconteceu essa busca pelo Paraguai, eu estava pronta”, conta. Agora, investidores, influenciadores, profissionais que trabalham de forma remota e pessoas à procura de emprego entraram no fluxo de brasileiros que buscam residência fiscal no país vizinho. “De agora em diante, quem vem é o perfil que tem esse incentivo de impostos”, estima a advogada.
Carga tributária menor
O aumento de interesse dos brasileiros é reflexo da lei de Maquila, criada em 1997 e atualizada em 2025, afirma a professora e pesquisadora do departamento de economia (DEPECON) da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Virginia Laura Fernández. O regime concede a investidores estrangeiros o direito de instalar empresas, importar insumos com benefícios fiscais, fazer montagem de produção no Paraguai e exportar com custo reduzido. “As empresas pagam cerca de 1% do valor agregado. De fato, é um bom momento para os investidores. A economia paraguaia tem mantido constância em termos de crescimento econômico, estabilidade e taxa de crescimento”, ressalta a economista, acrescentando que o modelo adotado pelo Paraguai foi criado para atrair grupos empresariais e ampliar a geração de empregos.
No Brasil, a carga tributária equivale a cerca de 33% do PIB. Já no Paraguai, gira em torno de 14% do PIB. O país fronteiriço tem uma regra chamada 10-10-10, que inclui 10% do Imposto sobre Valor Agregado (IVA), 10% do Imposto de Renda da pessoa física e 10% sobre o lucro das empresas.
Infraestrutura e desafios
Por outro lado, o Brasil ganha em outros quesitos na comparação com o país vizinho. Em relação à infraestrutura, a nação ocupa a 51ª posição e o Paraguai, 79ª, segundo o Índice de Desempenho Logístico (LPI) do Banco Mundial. Quem decide investir do lado de lá da fronteira pode enfrentar gargalos de infraestrutura, saúde, educação, logística e transporte. As empresas desembolsam investimentos privados para preencher essas lacunas. “Não há energia para o nível industrial mais elevado. Então você vai ter um custo menor, mas também vai ter menor oferta de serviços”, reforça a economista.
O casal Cristiano e Rejanny reconhece que a infraestrutura ainda deixa a desejar, até mesmo em bairros nobres de Assunção. “Não é uma infraestrutura igual às melhores regiões de São Paulo. Você vê muito buraco na rua, às vezes muito lixo. Mas isso também existe no Brasil”, afirmam.
Apesar dos problemas, os brasileiros pretendem empreender no Paraguai, embora ainda não saibam qual o modelo de negócio planejam criar. Hoje ambos trabalham de forma remota. Ele continua na multinacional em que atua e Rejane promove mentorias online sobre autodesenvolvimento para mulheres. Nas contas da família, o custo de vida mensal reduziu entre 30% e 40%. Agora eles pagam menos no plano de saúde, no seguro e no valor de veículos, mas não perceberam disparidade de preços nos aluguéis e na alimentação. “O Paraguai não é barato em tudo. O que muda é o poder de compra”, avalia Cristiano.
Outros casos de brasileiros
Assim como Cristiano e Rejanny, os influenciadores Jézer Trevisan, de 39 anos, e Talita Trevizan, de 34 anos, resolveram fazer as malas para o Paraguai em fevereiro deste ano, atraídos pelos impostos reduzidos. A decisão veio após a reforma tributária, que subiu a tributação de tráfego pago (ramo de atuação dos brasileiros) para 12,5%. Com a mudança, o casal colocou na balança que o estilo de vida no Brasil não compensava mais o aumento de custos que teriam. Eles moravam em um apartamento de 48m² em Alphaville, no valor de R$ 5,2 mil por mês. Já em Ciudad del Este, onde moram atualmente, pagam cerca de R$ 5,7 mil por um imóvel três vezes maior. “A gente vive bem melhor pagando menos”, calcula Jézer.
Como o trabalho é totalmente remoto, a mudança não impactou o negócio digital, que deve ter o CNPJ encerrado no Brasil após a abertura de empresa no Paraguai. Mas o processo de regularização para empreender não está pronto. O casal relata ter sido vítima de dois golpes de assessorias que prometiam entregar a documentação em curto prazo. Eles estimam que o prejuízo financeiro foi de R$ 15 mil. Até o momento, estão sem conta para movimentar recursos no sistema bancário paraguaio.
Embora a carga tributária tenha sido o principal fator para a mudança, Jézer afirma que a valorização de datas cívicas nas escolas influenciou a decisão de continuar a longo prazo no novo país. “Quando tivermos filhos, ficaria mais tranquilo vê-los estudando aqui, crescendo com mais base em disciplina, em conceito cívico do que no Brasil. Mas não foi um motivo forte para a mudança.”
Questões ideológicas
Já no caso da brasileira Michelly Meirelles, de 25 anos, e do marido Cássio Meirelles, além da carga tributária, as questões ideológicas foram um dos principais motivos para a mudança de país. O casal deixou São Bernardo do Campo, interior de São Paulo, há dois meses e se instalou em Ciudad del Este, localizada na tríplice fronteira, reduto de brasileiros que estão migrando para o país.
“Não nos identificamos com os valores do Brasil; infelizmente, muita coisa está saindo dos nossos princípios. Somos um casal cristão. Quando pensamos em ter filhos, não queremos que eles convivam com assuntos na escola que não achamos corretos. O Paraguai é um país de direita e tem princípios antigos de um país conservador”, afirma Michelly. O chefe de Estado do Paraguai é Santiago Peña, líder de direita. Atualmente, os dois países mantêm relações comerciais. O Brasil é o principal parceiro, sendo responsável pelo destino de 38% das exportações do país vizinho.
O casal Meirelles comanda uma agência de marketing especializada em criptomoedas, que atende influenciadores da América Latina. O pagamento pelos serviços é feito em USDT, uma criptomoeda ligada ao dólar. Michelly relembra que o negócio ia bem até a chegada da nova tributação sobre ativos virtuais. No ano passado, o governo estabeleceu uma tributação de 17,5% de Imposto de Renda (IR) sobre os ganhos e rendimentos para os investidores de criptoativos, independentemente do valor de investimento. A mudança coloca um fim na isenção para as operações mensais acima de R$ 35 mil.
“A gente teria de contratar uma contadora para fazer toda a declaração. O orçamento foi de R$ 12 mil por pessoa por ano”, afirma. Como os dois precisariam fazer a declaração, o custo chegaria a R$ 24 mil. O Paraguai surgiu como alternativa para o negócio. A brasileira afirma que os rendimentos recebidos do exterior não são tributados no país vizinho e que a empresa paga apenas uma alíquota de 10% sobre a atividade local. “A gente paga apenas 10% no nosso trabalho”, diz.
Enquanto aguardam a emissão dos documentos e a abertura de uma conta bancária local, Michelly afirma que continuam recebendo os pagamentos em USDT e utiliza um cartão internacional vinculado à carteira de criptoativos para fazer compras no dia a dia.
Mão de obra barata
Nem Michelly nem os demais brasileiros entrevistados pela reportagem se mudaram para o Paraguai em busca de emprego. Todos atuam de forma remota para empresas ou tocam o próprio negócio, com planos de abrir empreendimentos no país. Para quem considera migrar à procura de oportunidades, deve levar em conta que o Paraguai oferece uma proteção trabalhista mais limitada que a do regime CLT no Brasil, observa a economista Virginia Laura Fernández. Atualmente, 60% dos trabalhadores ocupados no Paraguai estão na informalidade, o que representa 1,66 milhão de pessoas, segundo o Instituto Nacional de Estatística (INE) do Paraguai. No Brasil, a taxa é de 37,5%, a menor desde 2020.
“Esse é um elemento que piora a condição de vida do trabalhador, mas faz com que o preço do trabalho seja mais baixo”, avalia Fernández, que afirma que esse contexto não é novo no mercado paraguaio. Segundo a economista, a lei de Maquila foi criada para atrair atividades industriais de menor complexidade tecnológica. “É um trabalho de montagem, pouco qualificado”, afirma. Esses trabalhadores que atuam na informalidade ou em ocupações de menor remuneração são os que mais dependem dos serviços públicos paraguaios, como saúde, educação e transporte, áreas consideradas precárias no país.
O país adota um salário mínimo nacional, atualmente fixado em G$ 3.044.000 (R$ 2.550) por mês. Não há equivalente ao FGTS e as férias também são diferentes. Os trabalhadores têm direito a 12 dias de férias remuneradas após um ano de trabalho. Após cinco anos na empresa, são 18 dias. Somente com 10 anos de serviço prestado é possível ter 30 dias de descanso remunerado.
Modalidades de residência
Quem pretende morar no Paraguai tem três modalidades de residência. A Mercosul é destinada a estudantes, trabalhadores contratados e familiares de residentes permanentes, com validade de dois anos. A residência temporária com radicação, criada em 2022, também permite permanência por dois anos e acesso à cédula de identidade paraguaia, com possibilidade de permanência e comprovação de recolhimento de impostos. Já a residência para investidores (PES) concede residência permanente mediante investimento mínimo de US$ 200 mil em atividades que gerem renda no país.
Para Jézer e Talita, “tem muita gente vendendo o Paraguai como a terra prometida”, mas “tem de ir com planejamento e uma reserva de emergência”, aconselha o casal. Michelly e Cássio fizeram uma reserva de R$ 100 mil antes de migrar. Os brasileiros Cristiano e Rejanny alertam que o Paraguai não é para “qualquer perfil de imigrante”. É ideal para quem chega com renda, trabalho remoto ou recursos para empreender.



