Visa e Mastercard testam transações por agentes de IA no Brasil
Visa e Mastercard testam transações por agentes de IA

A inteligência artificial começa a ocupar um novo papel no sistema de pagamentos: o de compradora. Visa e Mastercard estão testando, junto a bancos brasileiros, transações executadas por agentes de IA, dentro do chamado comércio agêntico. A tecnologia ainda é embrionária no Brasil, mas as companhias avaliam que, quando madura, poderá aumentar a segurança das transações digitais.

No comércio agêntico, o consumidor delega a um assistente de IA a tarefa de encontrar produtos e concluir a compra quando as suas exigências são atendidas. Um exemplo citado: o usuário pode pedir uma calça jeans tamanho 34 por até R$ 200, ou uma passagem de São Paulo para Nova York em voo noturno por até R$ 3 mil para 31 de julho. A Visa e a Mastercard projetam que a tecnologia poderá ajudar os consumidores a tomar decisões financeiras, seja na busca por produtos de menor preço, seja no aproveitamento de milhas, ao indicar a opção que gera mais pontos ou cashback. O agente também pode comparar condições de pagamento e prazos.

Essas transações devem ser viabilizadas por tokenização, que substitui os dados sensíveis do cartão por credenciais digitais. O recurso já é usado em compras on-line e nas carteiras digitais em lojas físicas. No modelo em desenvolvimento, o cliente autoriza o banco a liberar um ou mais cartões para o agente, num formato de autorização geral, sem precisar cadastrar o cartão em cada site de varejo.

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Testes com bancos brasileiros

A Mastercard afirmou ter realizado compras ao vivo com agentes de IA, usando cartões de débito e crédito, em transações com Santander e Itaú. Os testes envolveram itens como maquiagem, acessórios de beleza, produtos de supermercado e bens digitais. A Visa, por sua vez, já testou transações com Santander e Banco do Brasil.

Para que o sistema funcione, os agentes precisam ser reconhecidos como legítimos pelas instituições financeiras. "Precisamos dar a garantia para o banco de que determinado agente é o ChatGPT, por exemplo, e não o 'JoãozinhoGPT', que está se passando por uma IA legítima", afirmou Eduardo Arnoni, vice-presidente sênior de soluções para clientes da Mastercard Brasil.

Pesquisa com credenciadores mapeia desafios

Uma pesquisa da Visa em parceria com a PYMNTS Intelligence, realizada em janeiro de 2026, ouviu 75 credenciadores no Brasil, nos Estados Unidos e nos Emirados Árabes Unidos. Globalmente, 23% dos credenciadores afirmam que pretendem acelerar ativamente a adoção do comércio agêntico. No Brasil, o percentual é de 16%.

Entre os credenciadores do país, 56% avaliam que as estruturas de responsabilidade precisam ser repensadas para transações iniciadas por agentes. A dúvida central é quem responde quando uma IA realiza a compra. Outros 52% citaram a explicabilidade das decisões como prioridade — é preciso entender por que o agente escolheu um produto, cartão, loja ou condição.

Além disso, 56% destacaram o desafio de coordenar checkouts em jornadas com múltiplos varejistas e plataformas, enquanto 44% mencionaram a necessidade de estruturas de consentimento e governança de dados, com permissões claras de valor, categoria, frequência, prazo e escopo.

O levantamento também indicou obstáculos para uma experiência de pagamento fluida no Brasil: 36% apontaram limitações de tecnologias legadas; 32% citaram infraestrutura fragmentada entre canais; e outros 32% mencionaram a falta de interfaces para o ganho de escala.

Protocolos de segurança e legitimidade

A Mastercard adota três pilares no comércio agêntico, segundo José Pereira, diretor de produtos digitais e soluções da Mastercard Brasil. "O primeiro é garantir que agentes legítimos estejam comprando em nome dos consumidores. O segundo está em garantir que os comerciantes falem a mesma língua dos agentes. O terceiro consiste em capturar todos os critérios de compra que o cliente vai delegar."

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Já a Visa criou a certificação Visa Agentic Ready, para que agentes de IA sejam reconhecidos pelas instituições financeiras. Outra frente é o Trusted Agent Protocol, que informa ao comércio que a compra é feita por um agente certificado e identifica o consumidor representado. "Ele informa ao comércio que a compra está sendo realizada por um agente certificado pela Visa e identifica o consumidor que esse agente está representando", explicou Leandro Garcia, diretor executivo de soluções para pagamentos digitais da Visa.

Segundo Garcia, é importante que o varejista saiba quando um agente de IA está navegando em seu site, para que a atividade não seja confundida com a de um programa malicioso. A identificação do consumidor também permite que o comércio reconheça benefícios específicos para aquele cliente.

Mais segurança e monitoramento em tempo real

A Visa também vem treinando os agentes para reconhecer sites suspeitos. Dados como endereço IP e localidade do comércio são coletados no momento da transação e enviados à bandeira e ao banco para validação em tempo real. "A transação agêntica pode representar um aumento da segurança nas compras on-line. Diferentemente de usuários leigos, o agente consegue, em milésimos de segundo, avaliar informações sobre um site e compartilhá-las com a Visa", destacou Garcia.

As empresas reconhecem que o comércio agêntico ainda está no início no Brasil. A consolidação dependerá da evolução dos marcos regulatórios, da maturação dos protocolos de segurança e da confiança de consumidores e instituições. A expectativa é que os agentes de IA se tornem uma interface comum para compras e decisões financeiras no futuro próximo.