O escritor Gê Coelho, nascido em Vigário Geral e criado na comunidade do Dourado, na Zona Norte do Rio de Janeiro, está na lista de semifinalistas do Prêmio Jabuti com o livro Favelismo. Na obra, ele questiona interpretações que costumam associar as comunidades pobres exclusivamente à vulnerabilidade e à violência.
“É preciso reconhecer as potencialidades das favelas”, afirma o autor, em uma das ideias centrais do trabalho. A frase resume o espírito de Favelismo, que propõe uma nova lente para olhar os territórios periféricos.
Origem e trajetória
Nascido em Vigário Geral, um dos bairros mais simbólicos da Zona Norte carioca, Gê Coelho cresceu na comunidade do Dourado. A região é historicamente rica em movimentos culturais e comunitários, e essa vivência moldou a visão do autor sobre as favelas. Vigário Geral, por exemplo, é mundialmente conhecido por ser o berço do Grupo Cultural AfroReggae, que há décadas atua na promoção de arte e direitos humanos.
Em sua literatura, Coelho parte de uma perspectiva interna, sem a mediação de quem olha de fora. Ele conhece as redes de solidariedade, as expressões artísticas e as formas de organização que existem nesses territórios, aspectos que costumam ficar invisíveis nos relatos hegemônicos.
É essa experiência que dá consistência à sua proposta de “reconhecer as potencialidades das favelas”. Para ele, a favela não é apenas um espaço de falta, mas também um lugar de criação e de luta.
O que é o “Favelismo”
O título escolhido por Coelho é um convite à reflexão. “Favelismo” pode ser lido como uma crítica ao modo como parte da sociedade enxerga as favelas: um olhar que as reduz a estereótipos e impede a percepção das suas riquezas.
O autor não ignora os problemas que afetam essas comunidades, como a falta de infraestrutura e a exposição à violência. No entanto, ele rejeita a ideia de que esses problemas definam a identidade das favelas. Ao contrário, o livro busca evidenciar o que é construído todos os dias pelos moradores, mesmo diante das adversidades.
A frase “É preciso reconhecer as potencialidades das favelas” funciona como um chamado: para que a sociedade mude o registro e passe a valorizar a arte, a cultura e a organização comunitária que florescem nesses espaços.
O Jabuti e seu peso
O Prêmio Jabuti, criado em 1959 e organizado pela Câmara Brasileira do Livro, é considerado o mais importante da literatura brasileira. Ao longo de sua história, o prêmio revelou autores de diferentes estilos e regiões, mas a diversidade ainda é um desafio. Ter um livro com a perspectiva de Coelho entre os semifinalistas é um sinal de mudança.
A lista de semifinalistas deste ano inclui obras de diferentes gêneros e origens, o que reforça o caráter plural do prêmio. A seleção amplia o alcance do debate proposto por Favelismo. Livrarias, resenhistas e leitores passam a prestar mais atenção na obra, o que pode gerar novas leituras sobre o tema. Para um autor oriundo da favela, o reconhecimento é ainda mais significativo, pois demonstra que essas narrativas têm espaço no circuito literário nacional.
Representatividade e literatura
Nos últimos anos, a literatura periférica vem conquistando espaço, com autores e obras que retratam a realidade das quebradas e favelas. Ainda assim, a participação dessas vozes nos grandes prêmios é pequena. A presença de Gê Coelho na semifinal do Jabuti contribui para mudar esse quadro.
Ao escrever sobre o que conhece, o autor oferece ao leitor uma oportunidade de empatia. A literatura tem o poder de humanizar e desfazer preconceitos, e Favelismo faz isso a partir de uma narrativa que equilibra crítica e afeto.
A história de Gê Coelho é, também, a história de muitos brasileiros que cresceram em favelas e que tiveram suas capacidades questionadas. A semifinalização no Jabuti não é apenas um marco pessoal; é um símbolo de resistência e de potência.
Uma mensagem que ultrapassa o livro
Com Favelismo, o autor reafirma que a favela é um espaço de potência. A mensagem de Coelho não é de conformismo, mas de transformação: é preciso olhar para esses territórios com respeito e reconhecer o que eles têm a oferecer.
O escritor nascido em Vigário Geral e criado no Dourado mostra que é possível produzir literatura de qualidade a partir da favela. E, ao fazê-lo, ele inspira outras pessoas a contarem as próprias histórias.
“É preciso reconhecer as potencialidades das favelas” não é apenas uma frase; é uma postura diante do mundo. Uma postura que agora chega a um dos palcos mais importantes da literatura brasileira, levando consigo a voz de toda uma comunidade.



