Agentes de IA da Visa e Mastercard fazem compras por você
Agentes de IA da Visa e Mastercard fazem compras por você

A promessa dos agentes de inteligência artificial (IA) é ambiciosa: comparar preços, preencher dados de pagamento e concluir compras em nome do consumidor sem que ele precise digitar nada. A tecnologia, já em fase de testes por bandeiras como Visa e Mastercard, também precisa superar desafios importantes – entre eles, garantir que o agente seja legítimo e que o sistema não 'alucine' durante a transação.

Evolução gradual e segurança

O plano é que a tecnologia chegue em etapas. No primeiro momento, os agentes vão se limitar a buscar, comparar e recomendar produtos, deixando a decisão final de compra com o usuário. Com o tempo, eles ganharão autonomia para usar os cartões dos consumidores sem que a pessoa precise acessar o site. Para chegar a essa fase, porém, será preciso validar a identidade desses agentes, evitando que uma ferramenta maliciosa execute compras sem autorização.

“Precisamos passar essa informação para que o banco autorize a transação sabendo que quem deseja fazê-la é o próprio cliente”, afirma Eduardo Arnoni, vice-presidente sênior de soluções para clientes da Mastercard Brasil. Outro ponto sensível é definir os critérios que orientarão a decisão de compra. Um consumidor pode, por exemplo, pedir um tênis preto, de tamanho 40 e com preço máximo de R$ 500. “A arte está exatamente em definir o que é um parâmetro e o que não é um parâmetro”, destaca.

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Como vai funcionar na prática

O modelo de transação será semelhante ao Click to Pay, em que o consumidor autoriza a compra com um clique. No comércio agêntico, a autorização será mais ampla: o cliente valida o banco, por biometria, para liberar o cartão a um agente. Assim, não é preciso cadastrar o cartão em cada loja ou agente. Basta indicar as preferências – como “tênis preto, número 40, até R$ 500” – e aguardar o sistema encontrar uma oferta.

Entre as aplicações estudadas estão a comparação de preços em diferentes sites e a compra coordenada em múltiplos estabelecimentos, como adquirir uma camiseta em uma loja e uma calça em outra. Também há projetos para passagens aéreas, ingressos para eventos e programas de milhas. Para shows de alta demanda, o agente pode entrar na fila virtual assim que as vendas abrirem, sem que o usuário precise atualizar a página. Nas passagens, basta informar origem, destino, datas e teto de preço; o sistema monitora as tarifas e fecha a compra quando encontra uma opção dentro dos critérios.

Compras recorrentes também estão no radar. “Se eu preciso tomar um remédio que acaba mensalmente, posso pedir para o agente comprá-lo automaticamente todo dia 30 por um preço de até R$ 100”, exemplifica Leandro Garcia, diretor executivo de soluções para pagamentos digitais da Visa.

Testes no Brasil e cronograma

Nos Estados Unidos, o comércio agêntico já começa a aparecer. Desde 2025, o ChatGPT e a Perplexity permitem compras em algumas lojas dentro do próprio chat, mas ainda exigem que o consumidor preencha os dados da compra. No Brasil, a Mastercard já realizou transações ao vivo com cartões de débito e crédito no Santander e no Itaú. “A ideia é tanto criar agentes específicos para melhorar o desempenho dos sites, quanto preparar os varejistas para a chegada ao Brasil das soluções de grandes empresas de IA dos Estados Unidos”, afirma José Pereira, diretor de Produtos Digitais e Soluções da Mastercard Brasil.

Já a Visa fez testes com Santander e Banco do Brasil. “O agente foi até o comércio como se fosse um usuário, fez a busca, localizou o produto, entrou na página de pagamento e inseriu os dados do cartão para pagar”, conta Garcia. Segundo a Mastercard, o sistema de pagamentos brasileiro é avançado e os consumidores locais são early adopters. “O Brasil vai ser o próximo da lista a adotar agentes de IA”, diz Arnoni.

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Preparação para 2026

A Visa criou o Visa Agentic Ready, uma certificação para que seus agentes sejam reconhecidos pelas instituições financeiras. A expectativa é que, até o fim do segundo semestre de 2026, a maior parte dos bancos esteja preparada para operar com o comércio agêntico. “Estamos realizando testes para que, quando empresas globais de IA chegarem ao País e liberarem a tecnologia, ela já funcione para todos”, afirma Garcia. Para soluções específicas de comércio, os primeiros lançamentos estão previstos para o segundo semestre deste ano, começando por agentes para milhas, passagens aéreas e hospedagens.

Oportunidade para o varejo

A novidade pode redistribuir o jogo no varejo. Hoje, as lojas que aparecem no topo dos buscadores levam a maior parte dos clientes; com agentes de IA, a pesquisa tende a ser mais ampla, alcançando comércios menores. Para Arnoni, o maior desafio é educar o setor. “Os lojistas consideram a IA interessante, mas ainda têm pouca clareza sobre como ela pode ser aplicada a qualquer tipo de comércio e de que forma podem se preparar. Por isso, temos desenvolvido um trabalho quase de consultoria para ajudá-los a repensar seus negócios”, conclui.