O governo dos Estados Unidos deu início a um estudo técnico para avaliar o aumento do percentual de etanol anidro misturado à gasolina vendida no país. Hoje, a gasolina americana contém 10% de etanol (E10), e a proposta em análise prevê elevar essa proporção para até 15% (E15), medida que já é permitida para veículos fabricados a partir de 2001. A informação foi confirmada por fontes ligadas à Agência de Proteção Ambiental (EPA) e ao Departamento de Energia.
Por que os EUA querem aumentar o etanol na gasolina?
A iniciativa americana ocorre em um momento de pressão dos produtores de milho do Meio-Oeste, que veem no etanol uma alternativa para escoar a safra e reduzir a dependência de combustíveis fósseis. Além disso, o governo federal busca conter a emissão de gases de efeito estufa no setor de transportes. O etanol de milho, embora tenha uma pegada de carbono discutível, é considerado uma opção renovável.
A proposta enfrenta resistência de refinarias e de grupos ambientais. As refinarias argumentam que o E15 pode danificar motores mais antigos, enquanto ativistas apontam que a produção de etanol em larga escala compete com a produção de alimentos e pressiona o desmatamento. A EPA afirma que os estudos técnicos em andamento vão avaliar exatamente esses impactos.
Comparação com o Brasil
O Brasil é o maior consumidor de etanol do mundo e mistura atualmente 27% de etanol anidro à gasolina comum, percentual bem acima do que os EUA consideram. Segundo dados do Ministério de Minas e Energia, a mistura brasileira é uma das mais altas do planeta, resultado de décadas de políticas públicas em favor da bioenergia.
No Brasil, a flexibilidade dos motores flex permite que o consumidor escolha entre gasolina e etanol hidratado, o que torna o mercado mais maduro. Nos EUA, a infraestrutura de abastecimento ainda é limitada para blends mais altos, e a maioria das bombas só oferece E10. Aumentar para E15 exigirá investimentos em tanques e bicos adaptados em parte dos postos.
Impactos econômicos e comerciais
Se o E15 for aprovado, a demanda por etanol de milho nos EUA deve crescer significativamente, o que pode impactar os preços do milho no mercado internacional. Para o Brasil, que é um grande exportador de etanol, a decisão americana pode abrir novas oportunidades comerciais, mas também aumentar a concorrência no setor.
Especialistas ouvidos pela reportagem afirmam que a medida deve ser implementada de forma gradual. Um estudo do Departamento de Agricultura dos EUA (USDA) estima que o E15 poderia criar um mercado adicional de cerca de 4,5 bilhões de litros por ano para o etanol americano. No entanto, o estudo ressalta que a logística e a aceitação do consumidor são os maiores desafios.
Enquanto o estudo não é concluído, a EPA abrirá uma consulta pública para receber contribuições de setores interessados. A expectativa é que uma decisão final seja tomada até o primeiro semestre de 2027.
Pressões políticas
A discussão também tem forte apelo político. Os estados produtores de milho, como Iowa, Illinois e Nebraska, são decisivos nas eleições presidenciais, e o aumento do etanol é visto como uma forma de conquistar votos. Por outro lado, estados produtores de petróleo, como Texas e Louisiana, se opõem à medida, alegando que ela elevará os custos de produção e prejudicará a competitidade das refinarias.
Líderes do agronegócio brasileiro acompanham as negociações com atenção. Segundo a União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (UNICA), um eventual aumento da mistura americana pode reforçar o papel do etanol como commodity global e favorecer a expansão do mercado de biocombustíveis em outros países.
Por ora, a Casa Branca se limita a dizer que a avaliação técnica ainda está em andamento e que qualquer decisão será baseada em evidências científicas. A pressão de ambos os lados, no entanto, já indica que o debate está longe de um consenso.
O que pode mudar para o consumidor
Para o motorista americano, a mudança significaria um combustível ligeiramente mais barato em alguns postos, já que o etanol custa menos que a gasolina pura em muitos estados. Em contrapartida, o consumo por quilômetro pode ser um pouco maior, já que o etanol tem menor densidade energética. A diferença na bomba, segundo cálculos do Departamento de Energia, seria de cerca de 3% a 5% no preço final.
No Brasil, a mistura de 27% já é realidade há anos. Especialistas brasileiros dizem que o país detém a tecnologia e a experiência necessárias para ajudar os EUA na transição. A possível expansão do E15 americano também pode contribuir para uma diversificação da matriz energética global, reduzindo a dependência de derivados de petróleo.
O tema será discutido em um seminário internacional em Washington no próximo mês, com participação de representantes dos dois países. A expectativa é de que os EUA apresentem um relatório preliminar sobre a viabilidade do etanol em alta concentração.
A decisão final caberá à EPA, que tem o poder de alterar o padrão de combustíveis por meio de ato administrativo, sem passar necessariamente pelo Congresso. Isso acelera o processo, mas também aumenta a possibilidade de disputas judiciais por parte das petrolíferas.
Enquanto isso, o Brasil acompanha os desdobramentos com otimismo. O etanol brasileiro, feito a partir da cana-de-açúcar, é reconhecido mundialmente por sua eficiência e menor emissão de carbono em comparação ao etanol de milho americano. Essa vantagem competitiva pode ser usada como argumento em futuras negociações comerciais entre os dois países.



