Perfume da rainha: substância mantém ratas-toupeiras inférteis
Perfume da rainha: substância mantém ratas inférteis

Um composto químico liberado pela rainha das ratas-toupeiras-peladas atua como um anticoncepcional natural, mantendo as demais fêmeas da colônia inférteis e garantindo a hierarquia social. A descoberta, publicada por pesquisadores do Centro Max Delbrück de Medicina Molecular, na Alemanha, revela que a substância miristato de isopropila, produzida pela rainha, é essencial para a organização eussocial desses mamíferos africanos.

O mistério da eussocialidade

Desde a década de 1980, os cientistas sabem que as ratas-toupeiras-peladas (Heterocephalus glaber) vivem em colônias altamente organizadas, com uma única fêmea reprodutora, a rainha, e as demais fêmeas atuam como operárias, cuidando dos filhotes e da colônia. No entanto, o mecanismo exato que suprime a fertilidade das outras fêmeas permanecia desconhecido.

“Sabíamos que a presença da rainha é importante para manter a ordem, mas também para que as demais fêmeas permaneçam com a capacidade reprodutiva reprimida”, afirma Mohammed Khallaf, principal autor do estudo. “Uma teoria era a de que a rainha simplesmente intimidava os demais animais, empurrando-os fisicamente”, acrescenta o coautor Gary Lewin, que estuda esses animais há 15 anos.

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A descoberta do miristato de isopropila

A pesquisa, que inicialmente buscava mapear os perfis químicos das ratas-toupeiras-peladas, encontrou um ponto de inflexão ao identificar que uma substância específica, o miristato de isopropila, estava presente em alta concentração na rainha, mas quase ausente nos indivíduos não reprodutores. “Foi o primeiro sinal de que essa molécula parece ser importante”, diz Lewin.

Em experimentos, os cientistas observaram que fêmeas maiores evitavam o odor da substância, indicando um papel comportamental. Utilizando ultrassonografia funcional, notaram que o odor ativava fortemente o córtex olfativo e, em alguns casos, o hipotálamo, região que controla hormônios como prolactina e progesterona, diretamente ligados à fertilidade.

Experimentos confirmam efeito anticoncepcional

Para testar a hipótese, a equipe isolou casais de ratas-toupeiras-peladas não reprodutoras em três grupos: um exposto aos odores da colônia, outro especificamente ao miristato de isopropila, e um grupo controle sem nenhum odor. Os resultados foram surpreendentes: os casais isolados de todos os odores “se desinibiram sexualmente” e começaram a acasalar em poucas semanas, com cinco das seis fêmeas ficando prenhas. Já as fêmeas expostas ao miristato de isopropila não engravidaram.

“Era um superanticoncepcional”, comenta Lewin. Além disso, quando a rainha foi retirada de uma colônia, mas o composto continuou sendo administrado na cama por 12 semanas, a colônia permaneceu tranquila. Ao cessar a administração, os animais se tornaram agressivos e algumas fêmeas passaram a exibir comportamento sexual, levando ao surgimento de uma nova rainha.

Papel social e reprodutivo

O miristato de isopropila também atua como um indicador do estado reprodutivo da rainha, com picos de concentração durante a ovulação. “Essa molécula é um indicador do estado reprodutivo da rainha”, afirma Lewin. Se a rainha deixa de se reproduzir, ela para de produzir a substância, sinalizando para as outras fêmeas que podem competir pelo posto de rainha.

“Dado que nenhum outro animal está em fase reprodutiva, é muito importante para a colônia saber que a rainha está se reproduzindo”, explica Khallaf. “Não faz sentido ter uma rainha se ela não dá à luz.” A substância também ajuda a manter a ordem social, pois a rainha patrulha ativamente as tocas, que podem se estender por até três quilômetros, depositando a molécula para garantir que todos os membros sejam expostos a ela.

Por que a eussocialidade?

A eussocialidade, embora pareça restritiva, é crucial para a sobrevivência das ratas-toupeiras-peladas no deserto. Lewin explica que esses animais se alimentam de partes subterrâneas de plantas, que só conseguem alcançar cavando túneis. “Depois de encontrar esse recurso, elas compartilham o alimento, levam-no de volta, armazenam-no na câmara e o dividem com o restante da colônia”, detalha. Esse comportamento cooperativo permite que explorem diferentes direções e maximizem a eficiência na busca por alimento, além de minimizar a perda de calor ao dormirem juntas.

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“Assim, ao serem sociáveis, basicamente conseguem sobreviver”, diz Lewin. “E acreditamos que ter uma rainha é uma forma de reforçar a coesão social na colônia.”

Perguntas em aberto

Apesar do avanço, ainda há mistérios sobre como a rainha consegue suprimir a fertilidade das outras fêmeas sem afetar a si mesma. “Deve se tratar de uma mudança que ocorre em seu cérebro, no nível dos receptores ou dos circuitos neuronais, que permite continuar produzindo essa substância sem ser afetada por ela”, especula Khallaf. A pesquisa abre caminho para entender melhor a comunicação química em mamíferos sociais e suas implicações evolutivas.