O estágio superior de um foguete Falcon 9, lançado pela SpaceX em fevereiro de 2015 para levar o satélite DSCOVR ao espaço, está em rota de colisão com a Lua. A previsão de astrônomos é que o impacto ocorra na próxima quarta-feira, gerando uma nova cratera no lado oculto do satélite natural da Terra.
O objeto, que pesa cerca de 4 toneladas e viaja a aproximadamente 9.300 quilômetros por hora, deve abrir um buraco com cerca de 20 metros de diâmetro. Por atingir a Lua em uma região não visível da Terra, o choque não poderá ser observado diretamente, mas será registrado por instrumentos de sondas em órbita lunar, como o Lunar Reconnaissance Orbiter (LRO), da Nasa.
Um acidente espacial raro e valioso
Embora a Lua já tenha recebido impactos deliberados de espaçonaves, como o experimento LCROSS, que em 2009 colidiu com uma cratera permanente para procurar água, este será o primeiro caso de colisão involuntária de um objeto feito pelo homem com o satélite. O evento é considerado uma oportunidade científica rara, pois o impacto vai expor camadas do subsolo lunar a partir de uma trajetória conhecida.
O corpo em queda é, na verdade, um "resto" da missão DSCOVR (Observatório do Clima no Espaço Profundo), usado pela Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos EUA (NOAA) para monitorar o vento solar e o clima espacial. Após cumprir sua função de impulsionar o satélite, o segundo estágio do foguete ficou vagando em uma órbita caótica, influenciada pela gravidade da Terra, do Sol e da Lua.
O segundo estágio do Falcon 9, que após a separação permaneceu em uma órbita altamente elíptica ao redor da Terra, vem sendo acompanhado de perto por astrônomos desde 2015. A fragmentação natural por pressão de radiação solar e outras perturbações gravitacionais alteraram gradualmente seu percurso. Nos últimos meses, observadores identificaram que a aproximação com o sistema Terra-Lua levaria o objeto a um impacto na quarta-feira.
Impacto no lado oculto da Lua
A região exata da colisão ainda é incerta, mas estima-se que o local fique próximo ao equador lunar, em uma área de planícies basálticas. Como ocorre no lado oculto, a colisão deve causar pouca ou nenhuma interferência nas comunicações com a Terra. A poeira ejetada pode se elevar a vários quilômetros de altura, mas sem riscos para satélites em órbita.
A velocidade do impacto, embora alta para os padrões terrestres, é relativamente baixa para o ambiente espacial, o que significa que a cratera formada terá dimensões modestas se comparada a crateras meteoríticas naturais. Estima-se que o buraco terá entre 10 e 20 metros de diâmetro, com profundidade de até 2 metros. Esses números, no entanto, dependem da densidade e porosidade do solo lunar, conforme dados de sondas anteriores.
Novos olhos sobre a Lua
Várias missões ativas ao redor da Lua, como o LRO e a sonda indiana Chandrayaan-2, poderão fotografar o local do impacto semanas após o evento. A comparação entre imagens antes e depois da cratera permitirá estimar a composição do material ejetado e a consistência do regolito lunar. Esse tipo de informação é valioso para futuras missões tripuladas ao satélite, incluindo o programa Artemis, que pretende levar astronautas à superfície lunar ainda nesta década.
A expectativa é que a colisão gere um pulso de dados que ajude a calibrar modelos de impacto. Com a trajetória precisamente conhecida, o evento funciona como um experimento controlado. Astrônomos de diferentes países, inclusive do Brasil, estão acompanhando a queda e planejam observações posteriores da nova cratera.
Lixo espacial ganha protagonismo
O caso também chama a atenção para o crescente problema do lixo espacial. Desde o início da era espacial, milhares de objetos deixados em órbita – desde estágios de foguetes até satélites desativados – permanecem sob influência gravitacional, tornando-se um perigo para missões ativas. Eventos como este mostram que a poluição espacial transcende a órbita terrestre e pode afetar outros corpos celestes.
Nos últimos anos, agências espaciais têm discutido medidas para rastrear e desviar detritos. A colisão com a Lua, ainda que sem consequências graves, reforça a necessidade de padrões internacionais para o descarte de equipamentos espaciais. Empresas privadas, como a própria SpaceX, já implementam procedimentos para colocar estágios gastos em órbitas de "cemitério" ou deixar que se desintegrem na atmosfera da Terra.
Para cientistas, o evento será um marco: pela primeira vez, um objeto criado por humanos atingirá a Lua sem que tenhamos planejado isso. A nova cratera ficará como uma marca permanente na paisagem lunar, e seu estudo poderá durar anos. O acompanhamento das consequências do impacto será feito por uma rede internacional de observatórios, que espera transformar o acidente em uma oportunidade de aprendizado sem precedentes.



