Os seres humanos ainda estão evoluindo? A resposta é sim, segundo especialistas, mas os rumos dessa evolução podem mudar drasticamente com o avanço da engenharia genética. Jason Hodgson, antropólogo e geneticista evolutivo da Universidade Anglia Ruskin, no Reino Unido, afirma que a evolução "sem dúvida" continua, embora as pressões da seleção natural tenham diminuído com a medicina moderna e a abundância de alimentos. No entanto, mudanças evolutivas perceptíveis levam muitas gerações, então ninguém as testemunhará em uma única vida.
Alimentação e adaptações recentes
Briana Pobiner, paleontóloga do Museu de História Natural do Instituto Smithsoniano, destaca o papel da alimentação na evolução recente. "Cerca de um terço das pessoas do planeta hoje em dia podem digerir leite na idade adulta", explica. Há 5 mil a 10 mil anos, quase ninguém conseguia. Essa mudança ocorreu quando os humanos começaram a criar animais produtores de leite; em épocas de fome, os que digeriam leite tinham mais chances de sobreviver e transmitir os genes, que se espalharam rapidamente.
Clima e variações biológicas
Quando nossa espécie migrou da África, diferentes climas levaram a adaptações como a pele mais clara em regiões com menos luz ultravioleta, para sintetizar vitamina D. Hodgson explica que as variações locais surgiram "a partir de pessoas que se movimentavam para longe umas das outras". Com a globalização, essas diferenças tendem a diminuir, mas o acasalamento associativo — a preferência por parceiros semelhantes — pode manter ou até aumentar algumas variações. Ele cita que "a altura, o peso e a estrutura facial" são características associativas em alguns grupos, influenciando a frequência dos genes.
Influência humana na evolução
Decisões humanas, como ir à academia, não alteram a evolução genética, pois características adquiridas não são transmitidas. Procedimentos estéticos também não mudam os genes, mas a edição genética com CRISPR pode. Em 2024, foram realizados cerca de 38 milhões de procedimentos estéticos no mundo, um aumento de 40% desde 2020, segundo a Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética (ISAPS). Thomas Mailund, ex-professor de bioinformática da Universidade de Aarhus, na Dinamarca, observa que "você não se parece necessariamente com o que os seus genes dizem que você deveria se parecer".
CRISPR e o futuro da edição genética
A técnica CRISPR, que funciona como tesouras moleculares, já é usada para tratar condições como anemia falciforme, mas seu custo é alto. Hodgson acredita que, em 5 mil anos, a edição genética poderá ser vista como ética, e até antiético não usá-la para eliminar doenças hereditárias. Ele especula que "o futuro da nossa evolução... realmente será passar a ficar em mãos humanas", mas admite que "espero não ver nada disso enquanto eu viver".
Possibilidade de nova espécie
Mailund sugere que, em um milhão de anos, nossos descendentes podem ser tão diferentes de nós quanto o Homo erectus é dos humanos atuais. Se populações se isolarem, como em colônias espaciais na Lua ou em Marte, a adaptação à baixa gravidade poderia levar a uma nova espécie. Ele ressalta que "a questão real é 'o que iremos escolher?', não 'o que a biologia fará conosco?'"



