Uma expedição internacional liderada pelo Schmidt Ocean Institute, dos Estados Unidos, coletou 31 organismos marinhos na costa de Fortaleza que podem representar espécies inéditas para a ciência. O grupo permaneceu cerca de 15 dias em águas internacionais e desembarcou na capital cearense no início de maio, com imagens impressionantes de criaturas de cores e formas surpreendentes.
O biólogo Renato Mitsuo Nagata, do Instituto de Oceanografia da Universidade Federal do Rio Grande (IO-FURG), foi um dos dois brasileiros na missão e afirmou ao g1 que há grandes chances de que os animais sejam realmente desconhecidos. Segundo ele, especialistas em biodiversidade e taxonomistas que participaram da viagem já conseguiram ter uma ideia: "Como tinham especialistas em biodiversidade de animais marinhos, taxonomistas, a gente já consegue ter uma ideia de que são espécies que nunca ninguém viu e que, potencialmente, são novas de fato".
Imagens mostram polvo devorando água-viva vermelha
Entre os registros que chamaram atenção durante a expedição está um polvo se alimentando de uma água-viva vermelha brilhante. Outra imagem impressionante mostra uma lula-de-vidro juvenil, encontrada a 779 metros de profundidade, e uma serpente marinha que se move com cílios brilhantes. Criaturas transparentes com tamanhos variados também foram filmadas em alta resolução.
O estudo ocorreu na zona mesopelágica, uma faixa do oceano localizada entre 200 e 1.000 metros de profundidade. O local é de difícil acesso por ser escuro, extremamente frio e submetido a uma pressão intensa por causa da coluna de água. De acordo com Nagata, se um ser humano caísse por engano naquela região, o corpo congelaria imediatamente, parando todo o metabolismo.
Confirmação de novas espécies depende de análise genética
A relação inicial de possíveis descobertas inclui:
- Anfípode, crustáceo semelhante a caranguejos e lagostas;
- Verme teia-de-fada, que se move mais rápido do que o esperado;
- Nove medusas;
- Sete sifonóforos, organismos coloniais parecidos com medusas e corais;
- Sete ctenóforos, famosos pelos cílios brilhantes usados para nadar;
- Quatro larváceos, criaturas semelhantes a girinos que vivem em casulos de muco;
- Dois rizários gigantes, organismos unicelulares visíveis a olho nu.
Para comprovar que cada indivíduo é uma espécie nova, a equipe precisa analisar dados moleculares, descrever o DNA e comparar as sequências com bancos de dados existentes. Também é necessário um exame aprofundado da morfologia. "Para de fato provar que é uma espécie diferente, precisa analisar dados moleculares para descrever o DNA dessas espécies, comparar com o que já existe escrito na literatura disponível em bancos de dados, e também analisar a fundo a morfologia dessas espécies para ver se realmente conseguimos definir que são espécies ainda não descritas", explicou Nagata.
Expedição usou o navio 'Ferrari' da pesquisa oceânica
A missão contou com o apoio do navio Falkor, considerada a "Ferrari" das embarcações de pesquisa marinha e disponibilizado gratuitamente pelo Schmidt Ocean Institute. "Eles disponibilizam gratuitamente para pesquisadores que montam equipes e que mandam propostas para fazer explorações de várias áreas do oceano. Esse ano, eles estão concentrando os estudos na região do Atlântico Sul, como Brasil, Argentina, Uruguai. Ano que vem também vamos participar de outras expedições", contou Renato.
Na avaliação do biólogo, a capacidade de gerar dados em poucos dias é algo inédito. "Imagina, 20 anos atrás, pensar que você vai em poucos dias sequenciar o DNA completo de um organismo, algo que nós pudemos fazer graças aos equipamentos que foram utilizados", comentou.
Tecnologia de ponta para ambientes extremos
Para acessar a zona mesopelágica, o grupo usou o ROV (veículo remotamente operado) Subastian, uma espécie de submarino não tripulado equipado com câmeras de alta definição, escaneamentos tridimensionais e diversos instrumentos científicos. O sistema permitiu observar os animais vivos em seu habitat, com suas cores, comportamentos e hábitos alimentares.
Além disso, foram empregados equipamentos como o EyeRIS, sistema de imageamento 3D desenvolvido pelo Monterey Bay Aquarium Research Institute (MBARI), e o DeePIV, que usa laser para gerar modelos tridimensionais do corpo dos organismos e do movimento da água ao redor. Câmeras de alta velocidade, capazes de gravar cerca de 1.000 quadros por segundo, ajudaram a analisar a natação das criaturas. Em laboratório montado a bordo, o sequenciador Oxford Nanopore realizou a leitura completa do DNA das espécies coletadas em poucos dias.
As amostras também foram mantidas em câmaras de baixa temperatura que simulam as condições das águas profundas, viabilizando experimentos sobre visão, fisiologia e comportamento. Esse conjunto de ferramentas foi essencial para estudar organismos de corpos moles e gelatinosos, que não sobrevivem bem fora do ambiente natural.
Próximos passos e novas expedições
Depois da análise genética e morfológica, que pode levar anos, os cientistas passarão à publicação de artigos científicos. A expectativa é positiva, segundo Nagata, mas ele observa que a confirmação oficial ainda depende das comparações detalhadas em laboratório. O grupo já articula novas missões para o Atlântico Sul no próximo ano, dando continuidade ao mapeamento da biodiversidade em uma das regiões menos conhecidas do oceano.



