O governo dos Estados Unidos anunciou, nesta terça-feira (4), a revogação do visto da embaixadora do Brasil em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti. A decisão foi confirmada pelo Departamento de Estado e repercutida pela imprensa internacional, incluindo a agência Associated Press (AP).
Reciprocidade como justificativa
Segundo uma fonte do Departamento de Estado ouvida pela AP, a medida é uma resposta à demora das autoridades brasileiras em conceder o aval diplomático para que Daniel Perez assuma a embaixada dos EUA no Brasil. A fonte destacou que “reciprocidade é a palavra-chave”.
O Departamento de Estado esclareceu que a revogação do visto não significa a expulsão da diplomata. Ela poderá permanecer nos EUA, mas sem visto válido, e o documento poderá ser restabelecido se o Brasil conceder a autorização para Perez.
O impasse com Daniel Perez
Daniel Perez foi indicado ao cargo de embaixador em junho. Há duas semanas, sua indicação recebeu aval de uma comissão do Senado americano, mas ainda precisa ser aprovada pelo plenário. Pela tradição diplomática, o país anfitrião deve autorizar a indicação antes da posse. O Brasil ainda não concedeu esse aval, e autoridades brasileiras sinalizaram que a autorização só deve ocorrer após as eleições presidenciais de outubro.
O Departamento de Estado afirmou que não descarta outras medidas. “Lamentamos a situação em que nos encontramos, mas deixamos muito claro que a reciprocidade é a regra do jogo. Se outro governo não permitir que realizemos nosso trabalho da maneira adequada, responderemos com medidas recíprocas”, disse o órgão.
Contexto de tensões recentes
O cancelamento ocorreu 10 dias após o Itamaraty negar vistos a dois diplomatas do Departamento de Estado, Riley M. Barnes e Samuel Samson, que viajariam ao Brasil. Eles foram citados pelo jornal The Washington Post como responsáveis por uma estratégia para questionar a integridade do sistema eleitoral brasileiro. Um porta-voz do Departamento de Estado negou que houvesse intenção de interferir nas eleições, afirmando que a visita discutiria “integridade eleitoral, liberdade religiosa e liberdade de expressão”.
Em 29 de julho, o blog da Andreia Sadi revelou que o governo brasileiro já esperava retaliação após a negativa dos vistos. Fontes do Itamaraty avaliavam reações no campo diplomático.
Quem é Daniel Perez
Daniel Perez, de 38 anos, é presidente da Câmara dos Deputados da Flórida e filho de imigrantes cubanos. Se aprovado, será o primeiro embaixador dos EUA no Brasil desde Elizabeth Bagley, indicada por Joe Biden. O posto está vago desde janeiro de 2025, quando Trump retornou à Casa Branca. Perez demonstra apoio às políticas de Trump e está no comando da Câmara da Flórida desde 2024.
Escalada de tensões
As relações entre Brasil e EUA deterioraram-se em julho de 2025, quando Trump anunciou tarifas sobre produtos brasileiros. Negociações reduziram as tensões no fim do ano, com alívio de tarifas e sanções. Lula e Trump encontraram-se duas vezes, incluindo uma visita de Lula a Washington em maio. No entanto, a relação voltou a desgastar-se quando os EUA classificaram PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas, e novas tarifas foram impostas em julho, incluindo 25% e 12,5% sobre diversos produtos.
O Itamaraty não comentou a revogação do visto até a última atualização desta reportagem.



