O Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco) e o Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS) apontam que a Editora Avante, responsável por movimentar mais de R$ 27 milhões em contratos considerados fraudulentos, fornecia um passo a passo para prefeituras justificarem a compra de livros paradidáticos sem licitação. A investigação integra a Operação Gutenberg, que mira uma suposta organização criminosa suspeita de fraudar contratos de fornecimento de livros a prefeituras sul-mato-grossenses.
Orientação direta aos servidores
Segundo o Gaeco, a empresa compartilhava com servidores municipais um material com orientações para todas as etapas da contratação, desde a elaboração do Estudo Técnico Preliminar até a emissão de parecer jurídico, empenhos e notas fiscais. Documentos que deveriam ser produzidos pela administração pública eram direcionados pela própria empresa beneficiada. A Editora Avante interferia diretamente nos setores de compras das prefeituras para viabilizar contratações sem licitação.
Líderes da organização
A investigação aponta três pessoas como líderes da suposta organização criminosa. Rossana Paroschi Jafar é apontada como a principal integrante do grupo e proprietária de fato da Editora Avante, comandando os contratos firmados com prefeituras. Embora atuasse em Mato Grosso do Sul, a empresa tinha sede em São Bernardo do Campo (SP). Heyder Bartz é apontado como responsável pela gestão estratégica do grupo, incluindo a definição de pagamentos e a divisão dos valores recebidos; ele também é proprietário da empresa Superconteúdo Marketing Digital. Francisco Anizio dos Santos é apontado como responsável pela logística financeira e operacional, com acesso às contas bancárias da Editora Avante e coordenação de saques em dinheiro feitos por "laranjas". Rhayane Souza Fanaia, primeira proprietária formal da empresa, seguia orientações para sacar e distribuir dinheiro, conforme mensagens obtidas pela quebra de sigilo telefônico.
Movimentação financeira
Segundo o Gaeco, a movimentação financeira da Editora Avante chegou a cerca de R$ 27 milhões entre 2022 e 2024. Os primeiros contratos com prefeituras de Mato Grosso do Sul foram assinados em 2022 e somam aproximadamente R$ 3 milhões: Miranda (R$ 1 milhão), Ivinhema (R$ 874 mil), Bonito (R$ 818 mil) e Ladário (R$ 459 mil). Também foram identificados contratos firmados entre 2025 e 2026: Anaurilândia (R$ 232 mil), Japorã (R$ 226 mil), Fátima do Sul (R$ 244 mil), Deodápolis (dois contratos de R$ 161 mil e R$ 313 mil) e Caarapó (R$ 589 mil).
Livros e Operação Gutenberg
Parte dos livros vendidos pela Editora Avante pertence à série "Mundo do Theo", publicada pela Editora Galeria das Letras, voltada à inclusão de pessoas neurodivergentes. A reportagem procurou a Editora Galeria das Letras, mas não obteve resposta. A Operação Gutenberg foi deflagrada em 7 de julho e cumpriu 16 mandados de prisão. Giovanni Jafar, que estava foragido, se apresentou à polícia em 14 de julho. Heyder Bartz continua foragido.
Manifestações
A reportagem procurou todas as prefeituras citadas. Apenas a Prefeitura de Fátima do Sul respondeu, informando que não foi notificada sobre qualquer investigação relacionada ao contrato mencionado e mantém seus atos administrativos disponíveis aos órgãos de controle. A defesa de Rossana Paroschi Jafar informou que ainda analisa o caso. Não foi possível contatar as defesas de Giovanni Jafar, Rhayane Souza Fanaia e Heyder Bartz. O advogado de Francisco Anizio dos Santos não respondeu aos contatos.



