Nikolas Ferreira divulga fake news sobre vacinas e hidroxicloroquina
Nikolas espalha desinformação sobre vacinas e covid-19

O deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) publicou, no domingo, 2, um vídeo em suas redes sociais que dissemina alegações falsas já refutadas pela ciência sobre as vacinas contra a covid-19 e o tratamento da doença. A publicação se baseia no depoimento do imunologista norte-americano Anthony Fauci ao Senado dos Estados Unidos, ocorrido em 29 de julho, e já acumula mais de um milhão de visualizações somente no X (antigo Twitter).

No vídeo, Nikolas afirma que a hidroxicloroquina é segura e poderia ter salvado milhões de vidas, alegação sem nenhum fundamento científico e desmentida por dezenas de estudos. Fauci, ex-diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas (NIAID), aconselhou os presidentes Donald Trump e Joe Biden durante a pandemia. Na audiência, ele invocou a Quinta Emenda da Constituição dos EUA, que garante o direito contra a autoincriminação, e acusou o senador republicano Rand Paul de fazer uma campanha para prendê-lo.

Hidroxicloroquina: Fauci nunca a reconheceu como eficaz

Nikolas alega que o diário de Fauci revela que o imunologista considerava a hidroxicloroquina segura e pretendia disponibilizá-la para tratamento da covid-19. No entanto, o documento mostra exatamente o oposto. Em uma anotação de 18 de março de 2020, Fauci registrou uma discussão na Casa Branca sobre o medicamento: “Respirei fundo e disse que aquilo estava errado e não deveria ser feito”.

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Fauci também relatou um confronto com Peter Navarro, assessor comercial de Trump, que defendia o medicamento. O imunologista escreveu que as evidências que sustentavam a afirmação permaneciam “em grande parte anedóticas”, segundo a revista Newsweek. O jornal The Wall Street Journal mencionou a hidroxicloroquina como um dos pontos que deterioraram a relação entre Fauci e Trump, que a promovia sem comprovação científica.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) não recomenda o uso de hidroxicloroquina para prevenir ou tratar a covid-19. Resultados de 30 estudos clínicos, com mais de 10 mil pacientes, mostraram que a hidroxicloroquina não reduziu a mortalidade ou a necessidade de ventilação mecânica. Além disso, as pesquisas indicaram que o medicamento pode aumentar o risco de problemas no ritmo cardíaco, distúrbios sanguíneos e linfáticos, lesão renal, problemas hepáticos e insuficiência hepática.

Bebês abortados em pesquisas de vacinas: alegação infundada

Nikolas também sugere que partes de bebês abortados foram usadas em pesquisas para a elaboração da vacina contra a covid-19. Desde 2020, agências de checagem desmentem essa alegação. O Projeto Comprova, do qual o Estadão Verifica faz parte, explica que a alegação distorce uma tecnologia empregada em vacinas, como a da Oxford-AstraZeneca, que usa um vetor adenovírus recombinante.

Os pesquisadores pegaram o vírus que causa gripe em chimpanzés, inofensivo para o corpo humano, e o alteraram geneticamente para que tivesse características do coronavírus. Os adenovírus precisam se replicar em células mantidas em laboratório, da linhagem HEK-293, originadas de um feto abortado legalmente na Holanda nos anos 1970. No entanto, desde então, essas células se multiplicam naturalmente, e não há abortos para pesquisas de vacinas.

A Academia Americana de Pediatria (AAP) é categórica em afirmar que as vacinas não contêm células fetais. A organização explica que algumas vacinas envolvem o cultivo de vírus em culturas de células humanas originalmente desenvolvidas a partir de fetos abortados na década de 1960, mas os processos de purificação filtram as vacinas, e nenhum tecido permanece.

Distanciamento social e máscaras: eficácia comprovada

Nikolas afirma que um relatório do Congresso norte-americano demonstra que o distanciamento social e as máscaras foram ineficazes. O parlamentar faz referência a um relatório produzido por um subcomitê do Congresso dos EUA, apresentado por parlamentares republicanos – informação omitida no vídeo. O Estadão Verifica mostrou, em 2024, que afirmações do documento foram amplamente desmentidas por estudos e entidades médicas.

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Uma revisão de 44 estudos observacionais, publicada na revista The Lancet, concluiu que o distanciamento físico de 1 metro e o uso de máscaras reduziram significativamente a transmissão do vírus da covid-19. A OMS recomendou o uso de máscaras durante a pandemia com base em evidências científicas, pois reduz a propagação de doenças respiratórias.

Por que Fauci ficou em silêncio?

Nikolas sugere que o silêncio de Fauci seria uma “prova” das “mentiras” sobre as vacinas. No entanto, o imunologista invocou a Quinta Emenda porque o ex-presidente Joe Biden concedeu um indulto preventivo a Fauci em 19 de janeiro de 2025, protegendo-o de “processos injustificados e com motivação política” por seu papel no combate à pandemia. O indulto, porém, não cobre condutas ou depoimentos recentes, e Fauci temia que seu testemunho pudesse ser usado para processá-lo.

Nos Estados Unidos, invocar a Quinta Emenda não significa admissão de culpa. O dispositivo tem como finalidade proteger os cidadãos contra coerções, erros e transferência injusta do ônus da prova de atos ilícitos. O deputado Nikolas Ferreira foi procurado, mas não respondeu até a publicação desta reportagem. O espaço segue aberto.